quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Coitadeza



“Nos bairros de Bissau, jovens exibem um misto de desesperança e resignação, que se consubstancia na palavra crioula «coitadeza».”
Ana Cristina Pereira. In Público. 16 de novembro 2015.





Encontrei no Público, há uma  semana, uma excecional palavra nova – coitadeza – cozinhada na prolífica flexibilidade da nossa língua pelos jovens sem esperança da Guiné-Bissau. Se em vez de irredutíveis na preservação ecológica dos “c” e dos “p” antes das consoantes nos preocupássemos em abrir os olhos e os ouvidos à língua que se reinventa, talvez tudo fosse um bocadinho melhor. Ou pelo menos melhor explicitado verbalmente, e a distância entre o que pensámos e o que dizemos se encurtasse.




A tristeza é séria e pesada. Acontece-nos de repente e cava um buraco enorme na alma. É incontornável.
A coitadeza, pelo contrário, é uma espécie de tristeza evitável. Escusada e estúpida. Incompreensível pois não tem de ser e é-o apenas por desleixo de alguém que, escusadamente, nos deixa nesse estado de coitadeza.
Os atentados de Paris deram-nos uma imensa tristeza. Aconteceu, inesperada, a morte de muitas pessoas cujo único erro foi estarem ali com o coração desarmado para verem um concerto, comemorarem o aniversário de uma amiga, conversarem na esplanada de um café.
A situação política nacional enche-me, de outro modo, de profunda coitadeza. Estamo-nos a ver a caminhar para lado nenhum, mas continua-se como alguém que, equilibrando-se mal numa bicicleta, pedala apenas com o propósito de não cair. Pelo menos no imediato.
Quando se perde alguém que se ama fica-se inapelavelmente triste. Não há nada a fazer e isso faz cair em nós toda a esperança, toda a alegria, como um reposteiro de veludo cai pesado e ponderável. Inevitável no chão.
Seria por isso forçado classificar igualmente de tristeza aquilo que sente o nosso amigo hipocondríaco. Já o vimos, em teoria, perto da morte várias vezes. Qualquer mancha, qualquer dor, são, para ele, mais que uma mancha ou uma dor, mas um prenúncio de qualquer coisa muito grave. Não manchemos a tristeza para substantivar o nosso amigo. O seu estado é de coitadeza, uma persistente e irritante coitadeza, mas uma coitadeza certamente.
A coitadeza será assim um pequeno degrau na complicada escadaria da tristeza. A coitadeza reverte-se com bom-senso, o nosso e o dos outros, a tristeza não se reverte. Aquieta-se, quando muito.



No entanto a tristeza, de que o meu colega de crónicas falava há uma semana atrás, pode e deve (mesmo assim) fazer-nos mover. Mesmo assim. Contrariando a sua pesada quietude ... saindo do sítio em que ela nos esmaga pelo peso.
Toda esta tristeza que se abate sobre a Europa obriga-nos a sermos melhores, mais solidários e sobretudo mais atentos, mais inteligentes, mais decididos.
Sinto-me necessariamente mais europeu a cada bomba que rebenta numa cidade europeia, por cada imbecil que grita o nome de Alá para matar. Não me preocupo sequer hoje em entabular conversa com quem acha que a culpa é sempre nossa e alimenta o exotismo idiota de uma sociedade nova, e nos enche com o seu ódio escusado sobre esta civilização, sobre a nossa civilização, só porque sim. Enjoei há muito e fico surdo. Chegar aqui deu muito trabalho e muita tristeza! Eu gosto desta Europa que nos olha, apesar de tudo, paciente. Gosto (particularmente hoje) do Centro Pompidou, do Schauble, do Miguel Ângelo, duma bicicleta ferrugenta em Amesterdão, do amigo grego e da médica romena, do inglês Benjamim Clementine a cantar no Teatro Aveirense, sinto-me verdadeiramente solidário com o adepto do Schalke 04 que perdeu 1-3 no último sábado, perdido por Picasso com o desejo demente por um panino italiano ou por avistar o génio do Gaudí na pedra, por Budapeste iluminada por Sara Sampaio. Gosto desta cultura que se funde e da qual me aproprio como se fosse minha. E é.




Hoje não chove. Mas se chovesse aquietava esta tristeza num poema (em italiano) de Gabriele D’Annunzio. Mesmo sem perceber a palavra perceberia a música (europeia) que ela contém: (...) piove su le nostre mani/ignude/su i nostri vestimenti/leggieri,/su i freschi pensieri/che l’anima schiude/novella,/su la favola bella/che ieri/t’illuse, che oggi m’illude,/o Ermione.

La pioggia nel pineto


Créditos Fotográficos (de cima para baixo):

Benjamim Clementine no Teatro Aveirense (24.11.15)   Jorge Gonçalves
Gabriele D'Annunzio  aqui
David de Miguel Ângelo aqui
Início do jogo Schalke - Bayern M. (21.11.15) aqui


Crónica publica in O Comércio de Guimarães (25.11.15)

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