A cidade

“(...) mas as cores misturam-se todas, até se esbaterem numa tonalidade pálida e uniforme, numa neutral ausência de significado.”
Paolo Giordano. A solidão dos números primos. 2008.
Sou um homem da cidade. Tenho
tudo a ver com a cidade: gosto do movimento das caras, gosto da confusão, da
luz artificial, e de gente, gente que por ser muita não interpela - passa
simplesmente-, gosto do barulho, do trânsito que exaspera o coletivo, do
inesperado que só acontece na cidade. A placidez dá-me sono. O silêncio
absoluto da natureza aborrece-me profundamente na sua simpática previsibilidade.
Nunca me assustou – pelo
contrário – a possibilidade de viver numa grande cidade. Não calhou
simplesmente.
Aconteceu-me esta cidade
pelo nascimento e por escolha de vida. Muito mais pequena daquilo que eu
desejaria, ganhou na idiossincrasia o tamanho que geograficamente lhe faltou.
Gosto da arrogância da minha
cidade. Do granito que se exibe com a altivez de um imperador, pois sabe ser
mais que uma pedra ou uma arquitetura, pois cada pedra e cada arquitetura tem
sempre uma história mais ou menos conhecida, mais ou menos fantasiada, que
sustenta a confiança que a beleza tem de ter para se afirmar.
Gosto desta presunção – um
pouco judaica – de povo escolhido. De não nos afirmarmos apenas portugueses,
mas sobretudo de Guimarães, como o fez eloquentemente Novais Teixeira, num
jantar em sua homenagem no Restaurante Jordão, em 1956:
“Em toda a parte me dou a conhecer como homem de Guimarães E, em toda a
parte, me conhecem como tal.
Quando alguém me pergunta se sou português, é do meu hábito – e da
minha verdade – responder: Não, não sou português, sou mais do que isso, sou de
Guimarães! Com efeito, sou de uma pátria pequenina e sólida chamada Guimarães,
que tem por limite Vizela e Caneiros, a Penha e a Pisca. O resto, meus velhos
amigos, é a fronteira de um outro mundo”.
Cada cidadão de Guimarães é
assim um aristocrata que propala a sua condição perante os outros. Eis-me
vimaranense, e chega. E esse atavismo manteve-nos de pé durante séculos,
permitiu-nos encaixar as injustiças que se fizeram à cidade, sem que esta
perdesse a sua profunda e sustentada dignidade.
O património é a alma da
cidade, qualquer que ela seja. Por isso nem todas as cidades o são
efetivamente. A nossa é.
O consenso que se gerou à
volta da necessidade de preservar o património, de o defender, é claro há
muitos anos e sentido por todos nós. Na galeria da cidade, com D. Afonso, D.
João I e outros, coloco o arquiteto Fernando Távora, a sua visão, sensibilidade
e inteligência.
Foi, apesar disso, difícil
conter a insanidade construtiva recente, aquela voracidade que deixando marcas
não conseguiu, mesmo assim, comprometer a alma da cidade. O desafio agora – que
claramente percebermos a importância e retorno da defesa patrimonial – é
estarmos atentos aos pormenores.
De dia e de noite desvio o
meu olhar entristecido pelos novos e feios candeeiros de iluminação pública que
a pretexto de uma renovação destruíram (sem qualquer piedade ou consciência) os
belos exemplares que tínhamos na nossa cidade. Uma triste ideia sem qualquer
luz. Nas ruas por trás do Tribunal ou na Rua Capitão Alfredo Guimarães
iluminam-nos agora uns palitos inestéticos com uma luz própria de entontecer
mosquitos. Foram assim destruídos alguns belos exemplares de mobiliário urbano
pensados desde 1925 no Plano de Alargamento da Cidade por Luís de Pina.
Roubando um pedaço de alma à cidade, que os poucos globos que sobraram na Rua
Dr. José Sampaio e ao lado da Câmara Municipal procuram (ainda) resgatar.
Na pacatez dos quintais
interiores da cidade outros atentados se preparam com perfídia, como se os
jardins interiores fossem nada, e um velho chafariz incomodasse uma qualquer
necessidade mundana. Como se a cidade fosse apenas de pedra, sem a alma que ela
tem.
M esmo a esta luz é Natal. Um
feliz Natal para todos.
Publicado in O Comércio de Guimarães (23.12.15)
Fotos: Berlim (AFP), Lisboa (Público) e Guimarães.
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