quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O elevador

 

Desde que me conheço sempre tive uma relação muito tensa com a altitude. Não chega a ser pavor - graças a Deus – mas apenas um formigueirozinho de medo que me leva, ao que penso fazer de forma disfarçada, a não me abeirar com particular entusiasmo das varandas altas. Por isso desenvolvi a estratégia de, quando estou num local alto, olhar para o horizonte ignorando de forma profilática o chão mais próximo. Há quem diga que a vertigem resulta de uma vontade doentia de nos atirarmos, nunca pensei nisso assim, apenas relaciono a vertigem com a possibilidade de cair e isso é já suficiente assustador para eu ficar na defensiva.

Não disfrutei da vista de Nova Iorque, como deveria, do topo do Empire State Building, nem inalei com o olhar, como se imporia, o majestoso Atlântico da Torre de Hércules na Corunha. Deixei de ver, com a calma que a beleza inspira, muita coisa, quando a visão implica a perspetiva abrangente de uma altura. E, pasme-se, também não vou particularmente confortável à Penha de teleférico. Mas vou, temos a obrigação de contrariar os nossos medos. Não estico muito a corda mas faço sempre o esforço para ir, nem que à força de alguns suores frios. O único sítio em que perdi a noção da altura foi na tropa, em Mafra, pois aí estava entalado entre o medo e a chacota do instrutor e dos camaradas. Aí já fui capaz de deixar em segundo plano a vertigem; há que ser bravo quando as circunstâncias não nos deixam outra opção que não o ridículo. E o ridículo, ou a ideia que eu faço de ridículo, é, para mim, mais desditosa que o medo.

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Os elevadores como um instrumento da altura merecem-me, também, algum respeito, mas apenas a partir do 5º ou 6º pisos. Consigo acomodar sem grande dificuldade menos que isso. Na esmagadora maioria dos elevadores, e relativamente à altura, o medo resulta de uma abstração pois não conseguimos ver para fora deles. Sentimos que estamos a subir pelo som do elevador, pelo tempo que ele demora a elevar-se, ou até pela concreta certeza dos números digitais no mostrador de serviço.

O jornal i, num dos seus interessantes artigos, citou na passada semana um curioso estudo de um tal Lee Gray, norte-americano investigador da Universidade da Carolina do Norte, sobre as relações sociais nos elevadores. Um aspeto curioso sobre o qual nunca tinha pensado …

Há efetivamente um conjunto de normas de conduta que resultam de medos diferentes daquele a que me vinha referindo. Desde logo a colocação das pessoas no elevador; um novo elemento coloca-se na posição diametralmente oposta ao elemento que já lá estava, um terceiro forma um triângulo e o quarto um quadrado, cuja norma é sempre a mesma a do máximo afastamento possível entre as pessoas. Um quinto elemento vai ter de ocupar a desconfortável posição central pois mais ninguém se move do seu canto durante a viagem.

Na verdade as companhias de elevador são invariavelmente companhias indesejadas. Afastamo-nos o mais possível, evitamos o contacto visual e geralmente fixamos o mostrador para evitar constrangimentos. Existe um protocolo de silêncio pois qualquer conversa seria inútil no tempo que demoramos dentro do elevador e todos os ocupantes, com chatas exceções, levam o protocolo muito a sério para evitar mais embaraços.

O elevador Portugal está-se a tornar mais do que embaraçoso. Está a ficar demasiado apinhado para que nos seja impossível evitar o contacto visual com os parceiros do lado e a ficar também demasiado pesado para nos dar a esperança de alcançar o piso que desejamos. Fechados dentro de uma caixa de alumínio começamos a perder a perceção do que se passa lá fora, e, mais grave do que isso, a perder a noção do piso para onde queremos ir.

No meio de um espaço sem referências o elevador Europa poderia levar-nos bem alto se o construíssemos e usássemos solidariamente nesta altura difícil. Mas não. Começa-se a construir o elevador Catalunha, o elevador Flamengo, e outros pequenos elevadores sem a dimensão de um verdadeiro e mobilizador projeto. Talvez o Nobel da Paz nos saiba mostrar tudo o que de bom se construiu até aqui e perspetive o quanto é ainda desejável construirmos no futuro. Em conjunto.

in Comércio de Guimarães

Fotos: darkroastedblen.com +  Buster Keaton (Safety Last, 1923) + s3.amazonaws.com

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