quarta-feira, 14 de novembro de 2012

América

“(…) cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente - que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção - que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação com a graça de Deus venha gerar uma nova Liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da terra.”

Abraham Lincoln. Discurso de Gettysburg. 1863.

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Os Estados Unidos da América constituem uma das mais fascinantes histórias políticas da modernidade e que merece uma especial atenção de todos os outros povos. As recentes eleições presidenciais americanas e a sôfrega atenção da comunicação social e dos governos dos outros países sobre essas mesmas eleições são a prova dessa asserção.

A América é um caso muito especial de não indiferença.

 

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A América é uma espécie de irmão mais novo da Europa Ocidental. A minha visão sobre a América é paternalista. Provavelmente de forma injusta mas em linha com a visão de muitos europeus que aliam a admiração pela vitalidade e rebeldia desse benjamim, à sobranceria anciã com que se olham essas mesmas qualidades.

Os povos que fundaram a América fundamental são europeus. Esqueço deliberadamente os povos nativos para me concentrar nos condenados ingleses, nos colonos britânicos, nos holandeses, nos franceses ou nos espanhóis que detiveram territórios naquilo que é hoje o estado federal americano. E mais tarde com os emigrantes italianos, irlandeses, portugueses e tantos outros. Uma forte comunidade negra (que só nos anos 60 viu o fim do segregacionismo nos estados sulistas) e uma cada vez mais numerosa comunidade hispânica completam um quadro complexo e fortemente multicultural que se revelou aliás decisivo na reeleição de Obama.

A América fez-se com sofrimento, revoluções e guerras como a maioria dos estados que conhecemos. Um país que fez da liberdade o seu lema e que é desde o final do séc.XIX a maior economia mundial só agora ameaçada pela República Popular da China. Mas, convenhamos, até nisto os americanos sabem escolher os seus rivais. O modelo de desenvolvimento chinês não contempla valores civilizacionais nos quais nos possamos rever.

O único rival económico de respeito seria a Europa comunitária se tivéssemos a energia e a lucidez de perceber na nossa história as potencialidades comuns e não as diferenças que temos. Diferenças essas que os diretórios políticos europeus teimam em eliminar em vez de as aproveitar como diversidades complementares. Ninguém, à exceção dos narcisos, consegue amar alguém igual a si. São as diferenças que nos apaixonam e nos tiram da melancolia pastosa da concordância.

 

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A América plantou-se na cabeça da minha geração não apenas por questões políticas, de defesa da liberdade e da democracia, ou para quem a detesta por questões de controlo político/militar e de liberalismo económico, mas também por questões culturais. O cinema desempenhou aqui um papel fundamental, já que na música (com honrosas exceções como os Talking Heads) a influência foi sempre claramente britânica.

O cinema americano produziu, e continuará a fazê-lo, muito lixo sem utilidade, assim como acontece com outras cinematografias. No entanto o cinema americano deu-nos e dá-nos ainda hoje América de sobra; deu-nos pelo preço de um bilhete a vida da América e a sua história (por Coppola, Scorsese, ou Leone que tiveram o condão de nos empatizar com os mafiosos), deu-nos de forma irrepreensível o caráter das suas gentes (por John Ford, pelo mal amado Elia Kazan dada a sua participação na caça às bruxas de Joseph McCarthy dos anos 40 e 50, ou pelo ultimamente pouco inspirado Clint Eastwood), deu-nos a crítica a si mesmos (Welles, Nicholas Ray, Altman), a beleza e a sensibilidade (Capra, Jarmush ou Paul T.Anderson), o divertimento inteligente (Chaplin, Hitchcock, Spielberg que estreia em Janeiro próximo um filme sobre o presidente Abraham Lincoln) ou mesmo o que está para lá e que não sabíamos (Kubrick), ou até a visão não americana da América (Milos Forman, Wim Wenders, Otto Preminger). O cinema é um dos grandes embaixadores da América e um dos responsáveis por conhecermos tão bem a América e os americanos. O cinema é a janela escancarada da América para a rua.

 

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Se as qualidades e a vitalidade da América são apaixonantes os seus defeitos são geralmente exasperantes. O moralismo hipócrita é um deles. O presidente Bill Clinton foi obsessivamente perseguido pelo seu maroto envolvimento com uma estagiária, as relações extraconjugais e preferências sexuais dos políticos são escrutinados até à náusea. O nosso encantador irmão mais novo, apesar da bazófia, continua ainda sem saber lidar com algo fundamental ao seu equilíbrio: a sua sexualidade.

 

Publicado in Comércio de Guimarães

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