quarta-feira, 18 de abril de 2012

Nunca pior

 

joshua_benoliel1

 

Raramente temos a perceção do quanto evoluímos, ano após ano, em termos de consciência social, cultural ou política, em termos do respeito pelos outros. No entanto tudo parece ao contrário, o peso das notícias e a tendência para relevar as coisas más dá-nos uma noção generalizada de que tudo se afunda, de que o trajeto é (inevitavelmente) para baixo e não para cima.

Vejamos por exemplo os conflitos entre povos, as guerras a que eles conduzem, diminuíram drasticamente ao longo da história da humanidade. Na nossa Europa isso é claro e já não temos um conflito bélico entre países desde o fim da Segunda Guerra Mundial, há quase 70 anos! Isso é inédito na nossa história comum.

A União Europeia é, de forma injusta, um saco de boxe onde os cidadãos descarregam as suas frustrações. Os cidadãos dos países mais ricos porque se sentem roubados e os dos países menos desenvolvidos porque se sentem menosprezados. Uns e outros terão as suas razões, mas tudo é irrisório se percebermos o potencial de solidariedade e de civilização que a União Europeia nos trouxe. Não são apenas as regras democráticas, as normas de saúde, higiene ou ambiente que transpusemos para um quadro legislativo comum que importam, mas fundamentalmente a paz a que atualmente pouco valor se dá, já que a tomamos (erradamente) como garantida.

Comparando a nossa época com a Idade Média pode constatar-se que a taxa de homicídios baixou 30 vezes (ver Peter van Uhm no TED). Conseguem imaginar a nossa sociedade com 30 vezes mais mortes por assassinato? Certamente que não. A verdade é que ao longo da nossa história fomos passando para o estado o monopólio da força e da lei, fomos evoluindo e tornando-nos corresponsáveis nos estados democráticos por esse monopólio necessário.

 

Grevistas da CUF,Lx 1911

 

Quando olhamos para os Estados Unidos da América não podemos deixar de nos espantar com o facto de o país ter um presidente negro, que muito provavelmente será reeleito em novembro. É uma espantosa realidade tendo em conta que a comunidade afro-americana é apenas a terceira em número de pessoas (12,3%), atrás da hispânica (12,5%) e da comunidade branca (69.1%), mas também porque a história daquele país nos diz que há 50 anos um qualquer Obama teria muitas dificuldades em obter uma educação de qualidade ou até, nos estados do sul, teria severas restrições em usar uma casa de banho “pública”.

E que dizer da democracia sul-africana e da recente primavera árabe? Há riscos e perigos? Claro que os há, mas não deixa de ser um degrau mais acima em termos da liberdade dos povos e do combate contra o preconceito.

multidao

Ao nível daquilo que se designa por costumes essa evolução é ainda mais visível já que basta uma ou duas décadas para analisarmos e refletirmos sobre as nossas perspetivas pessoais, sem grande esquecimento ou distorção daquilo que outrora pensávamos.

A homossexualidade passou rapidamente – e bem – aos olhos da sociedade portuguesa, de uma aberração para uma opção. E isso em muito poucos anos. Eu próprio não me estaria a ver há dez anos atrás a achar normal, como penso hoje, o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, apesar de achar escusada a mimetização do casamento desde que garantidos os direitos civis de quem decide viver junto independentemente da orientação sexual, mas compreendo-o face ao desejo de se ver reconhecido esse ato de mútua vontade.

Já nem me atrapalha hoje a adoção de crianças por casais homossexuais tendo em conta a necessária observância de um conjunto de regras de respeito pelo bem-estar e liberdade das crianças. Há pouco tempo atrás isso ainda me metia alguma confusão, hoje não me mete nenhuma.

 

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Gosto porém de manter a minha inflexibilidade em casos menores como o do varandim do Toural, pois se há coisa que se discute são mesmo os gostos.

 

Fotos_Joshua Benoliel

Foto final_Guimarães Digital

Publicado in O Comércio de Guimarães

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