quarta-feira, 11 de julho de 2012

A caldeira

Painter-and-steam-boiler-002Foto: Gareth Fuller/PA

“A caldeira não estava preparada para a pressão e podia explodir de um momento para o outro (…) Só que o medo se transforma em cólera, e quando a cólera arrefeceu deixou-lhe a cabeça fria (...)”

Primo Levi. O sistema periódico.1975.

 

 

 

Todos os dias somos bombardeados com notícias que nos deixam em pé os cabelos e que dificultam a imensa tarefa a que nos propusemos. O défice das empresas públicas de transportes não se resigna, os compromissos irresponsavelmente assumidos nas parcerias público privadas mostram cada vez mais os seus dentes, conhecem-se contratos de arrendamento ruinosos a que o estado se comprometeu de forma demente e que indiciam, no mínimo, ignorância e desleixo de quem os assinou, os juros da dívida assumidos com satisfação há um par de anos começam a aparecer pujantes, qual cobrador de fraque, à porta do país.

E a situação, com uma ou outra pontual boa notícia, assemelha-se a um barco que vai furando em vários pontos. Quando se vai a um lado rebenta outro, quando se controla este aparece outro mais além, num corrupio de urgências que levaria a maior parte de nós a ir ao fundo, exausto, sem mexer mais uma palha.

 

Dá a sensação de estarmos ora sob a influência do terror no futuro, imóveis e acríticos, ora sob a euforia da revolta que dá as cenas patéticas a que vimos, aqui e ali, assistindo, para gáudio de todos aqueles que não gostam da democracia e que vivem na funesta esperança de verem ressuscitadas ditaduras que privem o homem do seu direito fundamental: a liberdade.

Se os sentimentos forem apenas esses, não há futuro e a caldeira rebenta. Rebenta pela inação do fogueiro, paralisado pelo terror, ou por descontrolo deste, obnubilado pela raiva.

 

Os portugueses e as instituições que os representam têm, rapidamente, que escolher um sentimento alternativo e que seja, matematicamente, equidistante do terror e da revolta.

Serenidade, bom senso e determinação seriam, talvez, uma boa e alternativa mistura.

 

Serenidade para pensar que já cá estamos há nove séculos e que seria necessária uma hecatombe estelar para quebrar os laços e o carácter forjado ao longo de tanto tempo. Defeitos temos muitos, a proverbial falta de civismo será algo a combater de forma decidida e consequente (e aqui o estado e as suas polícias deveriam ter uma outra atitude). Virtudes tê-las-emos certamente com mais peso. A extrema solidariedade de que sempre demos mostra, a força da família enquanto célula fundamental da nossa organização social, o nosso rasgo criativo, são características fundamentais nas quais devemos confiar para encarar o futuro. Do transmontano ao algarvio temos uma unidade na língua e no sentir que nos protege dos caldeirões étnicos e religiosos que frequentemente são o catalisador das mais variadas e conhecidas desgraças históricas.

O bom senso é algo que vem com o tempo e, como sabemos, o tempo foi aquilo que de mais visível tivemos enquanto país. Não somos um velho de 900 anos, mas um adulto com muita experiência na sociedade das nações. Tornar a fazer filhos, protege-los e incentivar a maternidade, era algo que o bom senso do país pediria para nos tornarmos um jovem com 900 anos!

 

O bom senso dir-nos-á que somos melhores quando estamos alegres, quando festejamos os nossos santos ou tão somente quando nos alegramos pela ventura de estarmos vivos, e isso reflete-se na qualidade e na predisposição para o trabalho. Por isso esta obsessão ridícula em cortar os feriados só me merece adjetivos: estúpida e inútil.

 

A determinação é a nossa história até aqui. Determinação em construir um país, determinação em conservá-lo uno e independente, determinação em espalhar a nossa cultura noutros continentes. Não a poderemos ter perdido no caminho e hoje, mais do que nunca, está na altura de a usarmos na forma como trabalhamos, na forma como nos envolvemos civicamente, na forma como encaramos o futuro … mais um dos muitos futuros deste Portugal.

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