quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Coisas que sem importância importam

"O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?"
Vinicius de Moraes

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Foto_SICNotícias/Lusa
O futebol, ao contrário do sol, não nasce para todos da mesma forma. A uns aquece e ilumina a outros apenas dá conversa, o que é, diga-se, uma colateral consequência apenas.
O futebol necessita, ao contrário de outras “artes”, de uma boa dose de fanatismo e um clube, claro, por quem torcer (os brasileiros aplicaram o verbo certo, pois há algo de tortuoso neste sentido de pertença que só este vocábulo “torcer” consegue colorir).
O futebol pode ter graça ou não mas isso não depende dele, mas dos olhos que o vêem. Desde logo porque o encanto do futebol exige o oposto das qualidades que admiramos noutras situações. O futebol não é democrático: o clube a que se pertence é uma ditadura no coração. A serenidade no futebol é mau presságio e a racionalidade torna-o chato. Tudo ao contrário do suposto.
Ser adepto de futebol apenas pelo espetáculo é insosso. Mesmo quando o nosso clube não joga é fundamental “ser por alguém”; é impensável um bom adepto de futebol não ter um clube favorito na liga espanhola, inglesa ou até mesmo turca; precisamos de pequenos amores enquanto o grande descansa à espera pelo próximo jogo … e frequentemente à espera, como nós esta semana, da redenção.

Nascer em Guimarães significa, como em nenhum outro sítio, nascer adepto do clube da cidade. Já o é assim há décadas e, felizmente, continua a sê-lo ainda hoje. Ser vimaranense e vitoriano são, quase sempre, duas faces da nossa moeda local, com algumas (raras) exceções que confirmam a regra. O Vitória, independentemente da sua dimensão, tem por via desta tradição educativa a marca da paixão que move outros clubes profundamente identitários como o Barcelona, o Atlético de Bilbao, o Nápoles, entre outros, que identificam de forma orgulhosa a terra a que pertencem. Daí que, pessoalmente, não acompanhe o agastamento de muitos vitorianos sobre o facto de outros designarem por Guimarães o nosso clube; é uma ignorância desculpável e, sobretudo, uma ignorância benigna. Vitória e Guimarães confundem-se.

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Foto-OlavoV in flickr
O destino de torcer indefetivelmente, e sem concessões de espécie alguma, por um clube fora da troica dos chamados “três grandes”, dá-nos uma infindável coleção de tristezas. Sofre-se mais do que é suposto, como nos grandes e verdadeiros amores. Sofre-se com as finais da Taça, com a desfaçatez de António Garrido no verão de 1975, com a descida de divisão em 2006, com a do inacreditável jogo de desempate contra o Estrela da Amadora para a Taça em 1990, ou com o golo contra o Basileia mal invalidado ao Roberto. Tudo isto ocupa, no meu caso, demasiado espaço na memória. Suavizada apenas com as lembranças da época gloriosa de 86/87 com Marinho Peres, em que jogámos o melhor futebol nacional daquela época e uma excelente prestação internacional, com a arte do talentoso Jeremias, com a tomada da Luz em 1986 no tempo do Morais, e mesmo a recente festa no Jamor há dois anos atrás, ou com a inesquecível romaria ao extinto Riopele em finais dos anos 70. E todos estes episódios só viraram acontecimentos pois neles houve uma marca especial que os adeptos apaixonados do Vitória conseguiram deixar, tornando-os assim momentos especiais e inesquecíveis.

Não sei se por sorte ou arte, ou mesmo por uma combinação das duas, nos calhou este ano uma equipa que dá gosto acompanhar e que criou uma empatia com o público vitoriano como há muito não se via. Só isso explica a ovação após o final do último jogo em que fomos goleados. A rapaziada humilde, trabalhadora e talentosa merece-o; e o facto de os jogadores estarem praticamente imunes às tatuagens e às crinas dá-lhes um toque de seriedade - e não de circo - que lhes assenta bem. O treinador Rui Vitória continua a pairar por cima do humor colérico e precoce que o futebol dá às coisas e por mim pode ficar até que a idade o sabote.
Sabemos, infelizmente, que todo este gosto não nos livra da situação miserável que a atual direção procura hoje obviar e combater. Precisamos de retribuir e de retornar ao jogo em massa e, se possível, tornarmo-nos sócios da SAD. Talvez agora, e de uma vez por todas, consigamos eliminar a vertiginosa “vocação pelo erro” que, como o Botafogo, nos acompanha. E a lenta jabuticabeira dê frutos mais cedo que o esperado…

Publicado in Comércio de Guimarães

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