quarta-feira, 6 de março de 2013

A mira técnica

 

“A melhor maneira de gozar a adolescência é sem inibições, mas, infelizmente, as inibições são o principal sintoma da adolescência”

A zona de desconforto. Jonathan Franzen.2012.

 

 

 

Tenho alguma dificuldade em criticar as crianças e os adolescentes de hoje no que diz respeito à sua proverbial falta de cultura. O meu prazer pelos livros ou a minha intensa dedicação a um conjunto de memoráveis bandas britânicas só foi possível dado o tempo disponível sem muita televisão, sem internet ou playstation por perto; havia poucas aulas e eu tinha que encher o tempo que sobrava das futeboladas. Mesmo o cinema apareceu-me, por acaso, ao ver o Touro Enraivecido do Scorsese numa daquelas mecânicas sessões de cinema no Póvoa-Cine quando a praia estava impraticável. Desde então não me largou mais, até hoje. Claro que o meu feitio mais ensimesmado ajudou à “tarefa” de sentir prazer pelas coisas da cultura o que, diga-se, se veio a revelar mais decisivo do que eu poderia esperar no relacionamento com o sexo oposto.

Atualmente tudo está feito para que os jovens não tenham tempo para nada; as aulas ocupam a quase totalidade das horas do dia, o estudo exige uma dedicação extrema que não se compadece apenas com a “simples” inteligência, os meses de aulas e exames estão a ver se, com algum jeito, ainda devoram o agosto, e o que sobra de tempo é dedicado, pelos pais, a tirar os filhos da rua e de casa para os colocar em atividades das quais apenas uma pequena percentagem tira efetivo prazer.

 

mira tecnica

Se hoje não consigo resistir a uma novidade tecnológica como poderia eu, se fosse jovem, resistir ao escape de estar permanentemente online, ou de devorar o meu tempo com um conjunto de excitantes inutilidades?

E logo eu que sempre fui fascinado pela televisão. Por isso degluti sem pestanejar as aulas de francês da telescola, as aulas de latim do propedêutico, o TV Rural e os problemas do míldio hoje recolocados na agenda política televisiva. Mesmo não havendo programação oficial, que ocupava o estonteante espaço das 18h30 às 23h30, fiquei muitas vezes hipnotizado pelas miras técnicas inventadas para sintonizar televisões e cuja música associo sempre às baladas ciciantes dos Manhattan Transfer e a uma forma bovina de olhar o mundo. Mesmo a mira técnica era para mim televisão! Até as habituais interrupções com os problemas técnicos (com o aviso: pedimos desculpa por esta interrupção o programa segue dentro de momentos) eram para se ver, não fosse o programa começar de repente ou uma revolução ter-se dado enquanto a animação checa ou polaca do Vasco Granja não chegava ao seu fim, ou melhor ao seu koniec.

 

mensurado

O mundo está hoje feito para que o tempo seja escasso e aquele que sobra é, compreensivelmente, utilizado em coisas simples que distraiam. Ou então para as multifunções: aquela capacidade alucinante de, ao mesmo tempo, ver um filme, fazer os trabalhos de casa e, também em simultâneo, comunicar através de sms. Aliás a ortopedia clínica deveria rever hoje o seu conceito clássico de dedo para falange, falanginha, falangeta … e telemóvel, de tal forma é ele hoje uma extensão das próprias mãos. Como está bom de ver só se consegue perceber o filme se ele requerer baixa inteligência e atenção, se os trabalhos de casa forem de cruzinhas e se o interlocutor das mensagens perceber os hieróglifos enviados.

 

 

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A cultura formada pelas várias artes e pelo conhecimento sobrevive mal a esta forma de estar. A cultura exige o tempo de perceber as coisas, o que é bem mais complicado do que o que parece. Será porventura um paradoxo mas a arte ensina-nos a ver o que está debaixo do nosso nariz. Decompõe e perspetiva de tal forma a natureza ou a realidade que nos permite sempre novos olhares sobre as coisas e as situações que julgávamos óbvias. Os jovens e adolescentes que hoje conseguem ver acima das modas e das tendências são verdadeiras máquinas de saber viver, e serão mais tarde senão mais felizes pelo menos mais sábios e consequentemente mais tranquilos com a vida e o destino.

O mundo tecnológico e da comunicação fácil é natural e compreensivelmente excitante; necessita apenas, como o vinho ou a gordura, de limites que resguardem o prazer. Mas ao mesmo tempo dá uma sensação de falsa liberdade que engana. É fácil eu ler, no facebook, coisas que “amigos” não me diriam em conversa. Não existem segundas adolescências, apenas o desejo que assim pudesse ser e o registo escrito dessa tonta fraqueza.

 

 

Publicado in O Comércio de Guimarães 06.03.13

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