segunda-feira, 21 de abril de 2014

Em letras pequeninas






"Ao balcão do Danúbio/ Bebo o café quente da manhã/ Gosto de estar de pé/ Ver quem chega/ E quem parte pelo misterioso/ Capim das ruas(...)".
João Almeida. Canto in As Condições Locais. 2014.

Nos contratos deve ter-se particular atenção às letras pequeninas, aos rodapés onde se amontoam palavras camufladas na sua infinita pequenez. Na vida também. Por trás (ou em baixo) das pessoas e das situações, há sempre um conjunto de letras pequeninas que a nossa hipermetropia (real ou aparente) não alcança. Às vezes não é preciso realmente lê-las. Outras vezes é perigoso não as ler.

As eleições europeias que se aproximam já têm mote nos dois principais partidos. Para o PSD estas eleições servirão para ajustar contas com o recente passado desastroso e para o PS a tarefa será a de erigir o monumento de um presente sem esperança. Entre os tweets de Rangel e os vociferantes comunicados de Assis vamos perder o melhor de cada um e o fundamental das eleições: o que queremos afinal, em comum desta Europa velha, sábia e (ainda) solidária? Que caminhos poderemos trilhar em conjunto? O que poderemos fazer pelo emprego na Europa? Que cidadania europeia queremos? Que política de emigração deveremos construir? Até que ponto resistiremos à demagogia dos que querem destruir a Europa para proteger (dizem) as identidades nacionais?
As letras pequeninas das eleições europeias serão, ao que tudo indica, as grandes questões europeias que ninguém lerá. Infelizmente o ato eleitoral servirá, como num jogo de treino, para rodar argumentos para futuras legislativas em vez de se construírem equipas e, como dizia o comentador desportivo, o necessário fio de jogo.

Como uma oração que toda a gente conhece e repete, deu-se agora, com particular dor e infelicidade de quem o diz, para se falar da atual geração de jovens portugueses como “a geração mais bem preparada”.
Não sou particularmente atreito ao ciúme geracional. Aliás os conflitos geracionais sempre me deram uma seca tremenda, agora e quando era jovem. Sempre me recusei a meter-me na toca da idade pela estúpida incomunicabilidade que ela pressupõem. Daí que este axioma propalado com tanta gravidade me irrite de forma tão solene.
A educação escolar é – e continuará a ser – uma arma fundamental para nos conhecermos plenamente e para extrairmos o melhor das nossas potencialidades. Agora ela não é tudo e muito menos o será enquanto por preguiça e comodidade se atribuírem aos professores o papel de pais, psicólogos, padres, terapeutas, polícias. Como se a profissão não fosse de si já suficientemente complexa e exigente. Mas essa exigência está escrita a letras miúdas.
Uma geração com melhor educação escolar não estará, inevitavelmente, melhor preparada. Desde logo porque a quantidade não significa necessariamente qualidade. Nas letras pequenas que acompanham a educação e formação de cada um vem a palavra humildade a que pouca gente liga. Sabermos que não somos os melhores, sabermos que podemos aprender com gerações “menos bem preparadas”, sabermos que podemos ser melhores, sabermos que a maldita “sociedade” somos nós, são frases em letras muito mas mesmo muito miudinhas. É mais fácil, contudo, ficar pelo título.

Há outras letras pequeninas fatais. A grande Rússia é um desses contratos históricos que prende os países periféricos ao seu domínio, como se verifica agora na Ucrânia. Os ucranianos são mais uma das vítimas das letras pequeninas dos contratos rasgados aquando da queda do Muro. A Rússia e os russos continuam claramente extasiados com a sua “vocação” de domínio e humilhação dos vizinhos. Aliás o comunismo foi, na prática, mais um instrumento imperialista do que uma ideia de sociedade. Que me perdoe o poeta pelo atrevimento já que até poderia “(...) haver alegria na merda da situação/ Aquela que os revoltosos levam/ Nos explosivos/ Na decisão repentina (...)”. Mas não há.



Publicado in Comércio de Guimarães 

Foto http://www.portalisc.net/p.php?s=549

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