terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um espinho no dedo grande do pé direito



“Verbalizara o louco desejo de ele próprio poder conservar-se jovem e de ser o retrato a envelhecer (...) E, todavia, lá estava o retrato diante dele, com um laivo de crueldade nos lábios.”

Oscar Wilde. O retrato de Dorian Gray. 1890.






Sinto saudades dos meus pés. À medida que a minha barriga cresceu, ao longo de muitos anos, fui perdendo a intimidade que com eles tinha. Dantes chegava-lhe facilmente com as mãos, agora, até para apertar os cordões dos sapatos tenho de escolher a melhor posição, tenho de dobrar o meu corpo, meticulosamente, como um acordeão, para cumprir uma tarefa outrora simples e intuitiva.

Quando falo em intimidade não falo obviamente de uma qualquer relação fetichista com os pés, Deus me livre. Ainda para mais com os meus. Aliás de todas as taras possíveis e imaginárias a dos pés é daquelas que mais me custa a entender, nem os pés têm biologia para isso, sempre mal irrigados e por isso pouco sensíveis à carícia, além daquela que alguns pés (poucos) têm com uma bola de futebol. Com tantas partes bonitas e irrigadas que o corpo humano tem, apostar na sensualidade dos pés é uma tolice incompreensível, é uma aposta arriscada no caroço da azeitona esquecendo, deliberadamente, a polpa. Quando falo em intimidade falo em camaradagem com os pés, falo em sentir a sua presença como parte integrante do corpo na qual se repousam abstrações pontuais. Aceno-lhes apenas, diariamente, como o faria com um vizinho a que desconheço o nome mas não devo iludir a sua presença. Boa tarde, bom dia e apenas isso.




Ora a tal relaxamento sentimental forçado, tal distância de olhar, leva a que eles, apesar de presos ao meu corpo, comecem a ter uma vida própria independente da minha. Só isso explica ter descoberto, recentemente, uma pequena farpa de madeira cravada no meu dedo grande do pé direito e que pelo aspeto já lá deveria estar há algum tempo. Não dei por nada, ele aguentou estoicamente a contrariedade sem me incomodar o sistema nervoso. Magoado, talvez, por tantos anos de uma distância convexa, aguentou sem se queixar, estoico. Até que numa aula de Pilates tive que cravar perpendicularmente ao chão os meus dedos grandes no soalho e ele gritou e eu, finalmente, gritei com ele e percebi que o pé, afinal, sofria. Ao olhar, agora com olhos de ver, para o dedo grande do pé direito, percebi um ponto negro profundo que não havia detetado quando, a muito custo, o lavo, ou quando lhe corto a unha sempre contrafeito pela maçada que é cortá-la. A relação higiénica com os meus pés é demasiado fria e distante para que houvéssemos retomado antigas cumplicidades.

Ainda passei uns dias, cobardemente, ignorando o assunto. Afinal só em determinada posição aquele espinho me incomodava, não me atrapalhava o andar e isso era suficientemente cómodo. O meu cérebro - que me conhece bem e sabia que eu era menino para ignorar o pé - começou a apelar ao dramatismo. E se aquilo infeta? E se aquilo gangrena? E se aquilo larga na circulação uma data de bactérias que vão afetar outras partes do corpo? Resolvi então levar-me e levá-lo a um enfermeiro que com um spray milagroso e uma perícia igualmente milagrosa restituiu ao meu pé a dignidade perdida na maleita. Ficamos mais próximos desde então e eu prometi cuidar dele, e do outro, por dias como este em que escrevo.



O tempo que me deu, generoso, esta barriga  e me afastou assim dos meus pés, também plantou na minha cabeça palavras que tendem a desaparecer. Mercurocromo é uma delas.
Quando, em absoluta reconciliação com os meus pés fui à farmácia buscar o material para cuidar deles pedi, intuitivamente, mercurocromo. A jovem farmacêutica que me atendeu revirou, ligeiramente, os olhos como se atendesse naquela farmácia um qualquer personagem de Charles Dickens que àquela hora pedisse petróleo para as suas candeias domésticas. Mercurocromo acho que não temos e fez o gesto de procurar mesmo não procurando. Expliquei-lhe para o que era e ela aconselhou-me o Betadine, uma solução com iodo no lugar do maldito mercúrio que condenou, sei-o agora, o medieval anti-séptico.
E por entre os pingos grossos da chuva senti-me reconciliado com as partes do meu corpo mais distantes. Uns pés que emigraram, há uns bons anos, do meu corpo e que retornaram, por estes dias, à terra natal.



Publicado in O Comércio de Guimarães (15.10.14)

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