terça-feira, 23 de junho de 2015

A rotina é um veneno


“(...) mas o que é esta janela senão o ar emoldurado por esquadrias? Estou asperamente viva. Vou embora diz a morte sem acrescentar que me leva consigo.”
Clarice Lispector. Água Viva. 1973.






Todos os nossos dias e os minutos desses dias deixam-se preencher, estáticos, com coisas que todos os dias fazemos nos minutos desses dias.
E o que fazemos, maquinalmente, sem pensar, ocupa com toda a certeza a maior parte do tempo de que dispomos.
Desde logo para nós – os homens – o desfazer da barba. Os pêlos (“pelos”, segundo o novo acordo) da barba despertaram sempre um profundo interesse. Milhões de rapazes púberes por todo o mundo estarão neste momento, como eu já o fiz,  perscrutando na face os primeiros sinais de barba e rezando para que ela saia pujante, numa espécie de oração planetária. Mais tarde, bem mais tarde, amaldiçoarão o milagre concedido.
Para elas – as mulheres – o ritual do vestir e do pentear, bem mais longo e prolongado do que o nosso, ou pelo menos do que a maior parte de nós. O alinhar de dezenas de peças de vestuário em cima da cama, o olhar rápido e matemático para as vinte e quatro combinações possíveis entre aquelas peças e, finalmente, a decisão.
E o banho, claro, o banho, antes de tudo e que nos deixa sempre mais limpos no corpo e na alma, e sobretudo mais frescos do que a maior parte dos povos europeus. Eles lá vão tomando banho, de vez em quando, mas custa-lhes um pouco, nota-se.





Quem tem filhos pequenos tem o dobro ou o triplo das rotinas dos outros. O biberão, o pequeno-almoço, o dar banho a horas certas, a papa que eles não comem, o banco que é preciso pôr no carro, o cinto do menino, o chapéu da menina, e o infantário quase a fechar, meu Deus que já vou chegar atrasado. Aliás só a azáfama destes casais jovens entre os trinta e os quarenta anos os impede de ver o quão massacrados e esquecidos são na sociedade que diligentemente alimentam com o seu árduo trabalho, sem que ninguém lhes ligue nenhuma, sem que ninguém sequer lhes reconheça um estatuto etário, lhes atribua um nome que seja.
Eles não são os jovens: essa esperança eleitoral; eles não são as crianças: essa preocupação constante, ó Diogo tira as mãos da lama; eles não são os reformados: sempre coerentemente indignados com tudo e com todos, indignados muitas vezes com a indignação dos outros; eles não são o pessoal da meia-idade, não são os da terceira-idade, nem de nenhuma idade. São uma espécie sem classe, um espécie sem grupo taxinómico que os enquadre na estante das idades. Deveriam ter tempo para pensarem em si, mas quando os filhos adormecem eles também adormecem, exaustos. Essa geração sem nome deveria ter a nossa mais profunda simpatia, agradecimento e ajuda, e não a têm.

Quando vou percorrendo as ruas que percorri centenas de vezes sei onde as pessoas se encontram e quando é provável encontrá-las. Bom dia Sr. Macedo, como está? Olá bom dia, posso levar o meu jornal? Olá D. Julieta, um bom dia para si. E os pequenos cumprimentos rotineiros das pessoas que encontramos a horas certas e que de forma genuína são sistematicamente simpáticas, sem encherem o dia, tornam-no agradável, previsível, simpático. O acordar pela sexta milionésima vez ao lado de quem amamos e que, pelo menos, pela sexta milionésima vez dorme como se não houvesse amanhã. O ler a crónica do Vasco Pulido Valente à sexta, ao sábado e ao domingo no Público e saber de antemão que ela será deliciosamente antipática para quem ousar dizer o que quer que seja. E eu não lhe perdoaria que um dia ele fosse simpático com alguma figura pública, isso quebraria a deliciosa rotina de ele ser (sempre) desagradável e de eu o ler (sempre) com agrado.




Nem todos os cigarros são bons cigarros, nem todas as aulas de Pilates ou de “up qualquer coisa” a que eu vou religiosamente ao sábado de manhã, às onze horas, rodeado de mulheres como num sonho de um extremista islâmico acabado de se rebentar, são sempre boas aulas. Mas o facto de existirem – cigarros e aulas de ginástica – é, para mim, extraordinariamente reconfortante.

A rotina é um veneno, é. Mas um veneno que mata apenas devagar, como os bons e seculares venenos. Mata lentamente: como a vida. 


Imagens de Arsenic and Old Lace. Frank Capra. 1944 e hipescience.com

Publicado in O Comércio de Guimarães (24.06.2015)

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