quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A Colecção


“Nestas fotografias, longe estamos do tempo das sefies, da massificação delirante de Narciso. A objetiva provocava então algum temor e as expressões dos rostos denunciam um  flagrante desconfiança, de renitente entrega, senão de culpa vaga de coisa nenhuma.”

Carlos Poças Falcão. Exposição Álbum de Família. 2016.




A Colecção de Fotografia da Muralha (CFM) continua hoje a dar-nos uma paradoxal imagem de inesgotabilidade. As coisas finitas têm um princípio e um fim, a Colecção tem apenas princípios. Tem o vício dos recomeços que a perspectiva sempre distinta do nosso olhar dá.
É tempo apenas de sistematizar o trabalho para poder seguir em frente, em novo princípio. Assim, na próxima quarta-feira, pelas 18h00, na Assembleia de Guimarães serão apresentados quatro livros que constituem os catálogos das quatro últimas exposições da CFM: O Trabalho (2014), A Celebração (2015), Na Cidade (2016) e Álbum de Família (2016). Estão por isso convidados. Todos!
Apesar de ser obviamente suspeito não posso deixar de adjetivar como belos esses mesmos livros. A nossa história fotográfica comum está lá, seccionada pelos temas escolhidos, confortada pela estética própria das exposições a que reportam, enriquecida pelo contributo de muitos que se associaram a um particular olhar sobre as imagens, sobre os factos e os modos que elas sustentam, e que sobre elas escreveram.
Uma excelente oportunidade começar a fazer da CFM também um ótimo presente de Natal.

A CFM tem uma história longa. Uma história que se confunde com o nascimento da Muralha, Associação de Guimarães para a defesa do Património, em 1981. É esse o ano em que surge a Comissão Instaladora da associação. É esse o ano em que a Muralha adquire parte do espólio de placas secas (negativos fotográficos em placas de vidro, também designado por clichês) originárias da Foto-Electrica Moderna, fundada em 1910, por Domingos Alves Machado e que domina o panorama da fotografia comercial em Guimarães na primeira metade do século XX.
As placas fotográficas compradas exigiram muito das primeiras direções da Muralha. Era necessário a sua preservação que foi sendo feita com inúmeros constrangimentos técnicos e financeiros. Não existiam então os meios convenientes para tratar e acondicionar o valioso espólio. Fernando Conceição, presidente da Muralha (2009-2010), começa a efetuar um exaustivo estudo da Colecção e toma diligências para que os clichês de vidro fiquem à guarda do Arquivo Municipal de Alfredo Pimenta, onde hoje estão. No projeto Reiimaginar Guimarães (2011-2013), integrado na Capital Europeia da Cultura (CEC, 2012) e coordenado por Eduardo Brito, digitalizam-se e estudam-se todas as imagens da Colecção, realizando-se assim, de forma notável, o propósito inicial da Muralha. O projeto da CFM aproveitou a CEC e manteve-se vivo para além dela.

A Muralha não se contentou contudo em ter um espólio fotográfico bem tratado e organizado. Esse era um fim e a Muralha vive de princípios. Importava por isso fazê-la chegar aos vimaranenses, interagir com eles, descobrir quem são os netos e os bisnetos daquelas pessoas que posaram para a lente de Domingos Alves Machado nas primeiras décadas do século XX, e falar com eles. E nessa estratégia surge o GuimarãeShopping que acolheu três exposições integradas nas Festas Gualterianas (com o apoio da Câmara Municipal e da Oficina). Um local de apressada passagem que trava quem lá vai para um momento de pausa, para um princípio. E nessa estratégia surge o Museu de Alberto Sampaio que guarda a história central da cidade e tem na Colecção mais um dos seus estimáveis braços que nos afagam a memória. O nosso princípio enquanto comunidade, enquanto nação.
Importou ainda estudar as imagens e escrever sobre elas. Importou ainda olhar as imagens e deixar escrito o que elas despertaram. A Colecção pretendeu assim ir além das imagens e nos quatro livros encontram-se alguns textos de dezanove autores que enriqueceram as imagens com o seu contributo.

A Colecção não caminhou sozinha. Muitas pessoas e instituições permitiram que a CFM chegasse ao patamar onde se encontra. O Cineclube de Guimarães teve e tem um papel fundamental em todo o processo. Em particular: a Alexandra Xavier, o Miguel Oliveira e o Nuno Vieira. A sua criatividade tornou possível esse eterno princípio em que a Colecção se sente, esquizofrenicamente, confortável.


Publicado in O Comércio de Guimarães (07.12.16) 

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