quarta-feira, 26 de abril de 2017

Da democracia

“Os defeitos e as fraquezas de um governo democrático descobrem-se sem dificuldade através de factos evidentes, ao passo que a sua influência salutar se exerce insensivelmente (...)”
Alexis de Tocqueville. Da Democracia na América. 1835.


Alexis de Tocqueville foi um aristocrata francês defensor da democracia e, possivelmente, o social-democrata avant la lettre. Foi para os EUA em 1831 para estudar o sistema prisional e deixou-se seduzir pela democracia americana. O seu livro Da Democracia na América é ainda hoje, passados 200 anos, uma reflexão importante sobre os defeitos e as virtudes da democracia. A sua cultura, a sua sensibilidade e elegância tornou as suas ideias quase impermeáveis ao tempo e às circunstâncias pelo qual esse tempo ganha significado.



Mais um 25 de abril e a data começa a perder força. E mal. Não são os cravos que fazem a data mas a democracia. Essa sim, tem um significado palpável, concreto, estimável.
O engenho humano, o sacrifício e o exemplo de muita gente permitiu consolidar no século XX uma ideia para o governo e funcionamento das sociedades: a democracia. Com ela morreu a ideia de que deveríamos ser governados por uma família que passava de pai para filho o poder. Com ela combateu-se a ideia do totalitarismo, dos vencedores que pela força guerreira alcançavam o poder e pela mesma força o mantinham, das ideias de sociedade que como os eucaliptos tudo secam à volta e as coisas eram assim porque tinham de ser assim, das corporações que se instrumentalizavam para legitimar quem não tinha a legitimidade conferida pelo povo.
Sem romantismos tolos nem azedumes saudosistas temos que olhar para nós e para o que o 25 de abril realmente nos trouxe: o direito a votar, o direito a escolher, o direito de nos acharmos em condições – também nós – de concorrer aos cargos políticos, mas, fundamentalmente, o dever de participar e de não desbaratar os direitos anteriormente referidos. De não os menosprezar.




O princípio democrático de um homem, um voto é absolutamente extraordinário. Arrasa a noção aristocrática de que há quem seja capaz de governar e quem, não o sendo, deve servir e obedecer. Arrasa a noção interesseira do inevitável. Dá-nos a possibilidade de nos exprimirmos através de um voto. De louvarmos ou protestarmos pelo governo do nosso país, da nossa cidade, da nossa freguesia.
Dá-nos inclusivamente a possibilidade de escolhas exóticas como para mim é o PAN. Para outros não.
Um homem, um voto, foi limando, com o tempo, as suas arestas mais contraditórias. Primeiro as mulheres com a difícil luta das sufragistas, depois as minorias como os negros americanos que só conseguiram o direito a voto em 1965. Um direito a voto arrancado a ferros pela mão de um presidente subvalorizado  – Lyndon B. Johnson – e de certa forma amaldiçoado pelo assassinato de John F. Kennedy, do qual foi vice-presidente. Um direito a voto vigilante para que a chama do direito não se extinguisse. A democracia implica o voto, mas o voto não faz a democracia. Em Portugal também chegou a haver eleições antes do 25 de abril, mas sem liberdade nem imprensa livre não há eleições democráticas.




Fico satisfeito ao saber de propostas para o governo do município a que pertenço. Concordando ou discordando delas. Essa é a essência da democracia. A diferença de ideias, a possibilidade de alternância democrática, a virtude de se discutir em liberdade e sem preconceito os caminhos que cada um propõe.
O André Coelho Lima tem estado particularmente ativo no lançamento de ideias. A última proposta tem a ver com a mobilidade num concelho complexo como o nosso. A ideia de melhorar as ligações rodoviárias e a de criar novas alternativas aos eixos que ligam a cidade às vilas são muito importantes dada a complexidade do nosso concelho e a necessidade de nos fortalecermos como um todo que somos. Isso continua, para mim, a ser prioritário, pois a distância física à cidade tende a tornar-se uma distância psicológica e isso necessita, com urgência, de ser combatido.

Quanto ao Toural a coisa é mais arriscada e merece maior reflexão e discussão, particularmente em conservadores como eu. No entanto a ideia surge – suponho eu – da necessidade de fixar e reforçar as condições dos moradores e o comércio no centro histórico e zonas tampão. Tanto uma ideia como a outra partem do pressuposto de que o carro ganhou. E essa é uma derrota que apesar de custosa é necessário encarar de frente.


Publicado in O Comércio de Guimarães (26.04.17)

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