quarta-feira, 19 de julho de 2017

A fronteira

“O adjectivo? Que horror/quando não é incisivo,/quando atira para o vago/ o pobre substantivo (...)”

Alexandre O’Neill.  O adjectivo in Abandono Vigiado. 1960.


Há adjetivos que não aderem a nós, que resvalam em nós como ovos numa frigideira de teflon. Escorregam, não colam, não perturbam. Velho é um desses casos. Velho é um adjetivo que gastamos nos outros mas nunca em nós. A fronteira desse mundo é inatingível, está sempre à nossa frente e nunca verdadeiramente a cruzámos interiormente. No entanto o corpo vai acendendo luzinhas, como os automóveis dos anos setenta.



Há uma estúpida e preconceituosa máxima que tenho na minha vida – e que não tem nenhuma pontinha da metafísica dos chocolates – e que é a seguinte: não posso ficar gordo e careca ao mesmo tempo. Quando o meu corpo começou a acender algumas luzinhas eu agarrei-me a isso, confiante na genética paterna e materna que me assegurariam um brilhante futuro ao nível capilar.
No entanto (não sei se é dos chineses ou do c...) o meu cabelo começou a dar sinais de me querer tornar o primeiro careca da família. Mesmo exagerando esse destino – mais por esquizofrenia do que por constatação - este é um título que eu dispensaria na linhagem dos Costas e dos Poeiras Lobo.
Bem me avisou o meu amigo Talecas há uns quinze anos atrás: Vita não podemos chegar aos três dígitos! Se eu o tivesse verdadeiramente ouvido não me preocuparia (tanto) hoje.



Quando era magro pesava 80 kg. Sempre me achei um homem de substância e o peso é o reflexo prático da substância. Não entendo a magreza masculina, por isso o meu magro sempre foi uma espécie de meio-gordo. São os ossos, digo-o (com razão) muitas vezes.
No entanto dos 80 aos 100 é um tirinho. É como nos carros quando estão acelerados e têm motor para isso, como eu o tenho. Passei então a fronteira para aí há uma dúzia de anos e nunca mais saí dos três dígitos. Tenho estado numa espécie de cruise control da massa corporal, mas para cima.


Por agora tenho-lhe dado forte no treino, fechado a boca aos pecados gastronómicos e aberto a goela de camelo à água. Acho que já estou nos 100. Talvez marque uns esperançosos 99,90 tal como o preço de uns sapatos. Vou tentar voltar à tranquilidade abrangente dos dois dígitos. Vamos lá a ver se me disciplino e se retorno a fronteira que nunca deveria ter cruzado.




Convém então falar de comida em vez de a comer. Sempre alivia.
A gastronomia moderna começa-me verdadeiramente a chatear. Os chefs irritam-me na mesma proporção que os cozinheiros me encantam cada vez mais. Não quero histórias sobre infusões e reduções em pratos tradicionais, porque se há de confitar o leitão se gerações e gerações o aprumaram, pacientes, no forno? Não há espuma que disfarce uma má carne nem risotto que suplante um arroz de tomate a sair pelo prato fora, literalmente.
Há dias fui com a minha mulher disfrutar um jantar a dois num restaurante da cidade. O menino que à mesa nos serviu explicava tudo, mesmo tudo, pormenorizadamente. Depois de ele se ir embora perguntava à Ana sobre o que estávamos a falar. Dava para esquecer tal o tempo e pormenor que connosco gastava. E a conversa continuava até ao próximo salmo a propósito de um novo prato. E novo esquecimento dialético. Mas apesar do esforço do menino a minha memória nada gravou. No entanto nessa mesma memória está gravado o sabor amariscado do salmonete grelhado que comi em Lagoa, uma surpreendente feijoada de búzios em Porto Covo, a jovem vitela assada lentamente na Vila da Feira em casa de um amigo, o redenho de porco que nunca mais comerei (!), o rabo de boi com grão de bico no Vila Lisa, uma navalheira acabada de cozer.
A nossa memória é verdadeiramente seletiva. É isso que falta aos computadores e, provavelmente, sempre faltará.
Ora vamos lá então descer para os 99!



Notas finais: a exposição O Verde a Preto e Branco, da Muralha, a decorrer já no Hotel da Penha, abre a 27 de julho – o seu tempo 2 - no Guimarãeshopping. Imperdível. A nova edição das Poesias Completas de Alexandre O’Neill pela Assírio & Alvim foi editada. Vem complementar – nunca substituir - a minha edição gasta da Casa da Moeda. Desta vez pela mão de Maria Antónia Oliveira. Igualmente imperdível.









Publicado in O Comércio de Guimarães (20.07.2017)

Sem comentários: