quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Por razões atendíveis

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Aí está a realidade.

Depois dos truques e das mentiras a que assistimos continuamente de um Governo incapaz de traçar um rumo claro, os números, como o algodão, não enganam e as novas sobre a nossa dívida pública são pesadas como chumbo.

Depois de nos falarem em milhares de milhões, o que por tão magnífico escapa por vezes ao nosso entendimento, houve alguém que se deu ao trabalho de definir os números da nossa dívida comum à hora.

Por cada hora que passa são 2,5 milhões de euros que acrescentamos à nossa dívida. Ou seja, são 2.500.000 € que em cada hora acrescentamos ao que já devemos. E nem sequer falamos dos novos investimentos, tão “somente” se trata de mais dívida a acrescentar ao bolo gigantesco que já temos só para manter este barco a funcionar. Em bom rigor teríamos que trabalhar (os que trabalham) um ano inteiro, sem comer, nem beber, nem receber salário, só para pagar o que devemos até ao preciso momento. Assustador! E de cada vez que nos vamos financiar lá fora os juros que nos cobram são cada vez maiores (ao nosso principal instrumento de financiamento – os juros das Obrigações do Tesouro – já se cobram juros a 6% a dez anos, já que ninguém lá fora é tolo e começam a duvidar se alguma vez teremos capacidade para pagar o que devemos).

O nosso grande problema enquanto povo é o de pensarmos, desde há muito tempo, que nós e o Estado são coisas diferentes. E não são.

Enquanto um alemão sente que se se gastar mais na saúde a conta sobra para ele enquanto indivíduo, aqui em Portugal achamos que sobra uma avozinha rica e distante (o Estado) que a tudo irá atender. Se um norueguês fugir aos impostos é um pária, aqui é um gajo fino. O Estado para nós é alguém que tem as costas largas e que merece ser enganado, é uma entidade exterior ao povo.

Já é tempo mais que suficiente para nos deixarmos desta infantilidade suicida e egoísta. Pois os direitos que todos queremos imutáveis estão a asfixiar o futuro dos mais jovens. Só a falta de consciência impede que os mais jovens saiam para a rua e nos digam na cara que eles merecem herdar um país com as mesmas possibilidades de futuro que os pais encontraram. Só isso nos põe a salvo de uma revolução que seria justa existir se os jovens percebessem o que realmente os espera se continuarmos cegos em relação à realidade.

Há uns anos atrás lembro-me de um campanha europeia socialista que anunciava, em jeito de campanha, que Portugal iria receber da Europa 1 milhão de contos por dia. E diziam-no sem sorrir como quem vai comer de borla. Ou será melhor dizer mamar? Hoje bastam duas horas para que a mesma quantidade de dinheiro saia para o nosso livrinho das dívidas.

No mesmo dia em que o Governo anunciou a suspensão do TGV devido à, segundo o comunicado, “significativa e progressiva degradação da conjuntura económica e financeira de Portugal”, o engenheiro Sócrates definia a notícia do Público, que agora citei, como “alarmista”.

Quando vamos finalmente ganhar juízo?

Foto_Flickr_alancleaver

Crónica integral

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