quarta-feira, 9 de julho de 2014

Anos de casado



"Naquela tarde quebrada/contra o meu ouvido atento/eu soube que a missão das folhas/é definir o vento.”
Ruy Belo. Aquele Grande Rio Eufrates . 1961.





A expressão “fazer anos de casado” é, julgo, muito mais comum na linguagem corrente do que “aniversário de casamento”. Penso que isso fará algum sentido. Fazer anos de casado tem uma sonoridade bastante mais guerreira do que o frugal e festivo aniversário de casamento.
Durante muito tempo desdenhei dessa mesma sonoridade. Parecia-me então que os casais a entendiam mais como uma prova de resistência do que, pensava, uma prova de amor. Fazia-me lembrar mais uma condecoração do tempo do que a volatilidade inquantificável de uma paixão. Fazia, já não é (para mim que fiz há pouco 21) assim agora.



Durante a primeira década e meia de casado raramente me lembrei da data. Felizmente a minha mulher também se esqueceu algumas vezes. Não fosse o dia de aniversário da Inês (filha de amigos nossos) e a data passaria, muitas vezes, sem particular lembrança. Quando porém isso não acontecia e era eu o inevitável esquecido lá tinha então, pobre espécime masculino, que gramar com a superioridade moral das mulheres para datas. Suponho ser no hemisfério cerebral das datas que nós, homens, guardamos as fundamentais memórias dos jogos de futebol ou o nome das bandas inglesas e as letras das músicas dos Talking Heads, daí que com o passar dos anos, como nos computadores velhos, temos que jogar fora as coisas menos importantes como datas de casamento ou aniversários, de que as mulheres sempre nos lembram de uma forma cortante e cínica.
No entanto agora lembro-me sempre. Não porque à socapa, como tantas vezes aconteceu, a vá ler, como numa cábula, no interior da aliança, não. O que acontece é que percebo – ao fim de tanto tempo – o que é “fazer anos de casado”. Sinto finalmente a leveza do seu peso cronológico e lembro-me agora do dia em que faço anos de casado. Não que faça qualquer coisa de especial – este ano juntamos uma aula de ginástica, um filme (o surpreendente Capital Humano) e um menu Big Mac a meias – mas porque a data existe e se repete como uma estrela. Ali, a cada ano, naquele quadrante do céu noturno e naquela posição temporal.



Fazer anos de casado pede a força de um verbo forte: fazer. Fazer com o mesmo desvelo com que se faz um texto ou uma sardinhada, mas durante muito mais tempo e, certamente, com uma exigência e uma delicadeza diferentes. Uma sardinhada é uma circunstância, um texto provavelmente um pouco mais que isso, é mais motivacional do que circunstancial, os anos de casado podem ser a soma de tudo isso, de sardinhadas e de textos com uns milhões de outras parcelas igualmente somadas na aritmética dos anos e talvez, no fundo, a mais perfeita prova científica da inoxidabilidade do amor.



O tempo dá-nos (maldoso) uma cara que nos surpreende cada vez que nos barbeamos com mais calma, mas dá-nos igualmente as certezas que nos angustiavam na altura em que estas não existiam. Do tempo em que as certezas eram simples e sofridas abstrações.
Amar é afinal tudo. Com casamento ou sem ele. Cada minuto em que se ama é um minuto em que somos obrigados a sair fora de nós mesmos, são as merecidas férias do nosso individualismo acessório. Amar é o Santo Graal na mesinha de cabeceira, o tão procurado, e afinal tão claro, sentido da vida. Amar é suspender o tempo e deixá-lo julgar que se soma.





FOTOS: Alexandre Coelho Lima  IMAGENS: One from the heart. Francis Ford Coppola. 1982.

Publicado in O Comércio de Guimarães. 09.07.14.


Sem comentários: