terça-feira, 28 de julho de 2015

Póvoa

Conhecia aqueles azulejos todos, um por um. Já não os via há anos, ou melhor, já não olhava para eles há anos. E eles lá estavam (deveria agora adjetivar com magníficos, mas não o faço) à minha espera, um pouco mais gastos, é certo, mas resistindo à oxidação das coisas e das pessoas, despoletando memórias como uma paisagem à qual, inquestionável, se retorna. Na Póvoa. Na mal amada póvoa que se esquece por força do consenso da má arquitetura e dos banhistas de má arquitetura. E achei absurdo esse desprezo, esse consenso de tal forma unânime que se deverá errar por ser tão mansamente consentido. A póvoa, a minha póvoa do mar bravo (que não espreitei) com a cova onde os mais incautos perdem o pé, outros a compostura, às vezes a vida, acontecia. A póvoa da maresia intensa que procurava furar a impermeabilidade dos azulejos coloridos, das tardes de nevoeiro que me atiravam para o cinema, para os filmes do Bud Spencer e para as comédias italianas de uma sexualidade (aparentemente) casta. Mas foi exatamente na Póvoa onde descobri que além dos filmes havia cinema. O touro enraivecido do Scorsese no Póvoa-Cine e a primeira discussão cinematográfica a preto e branco entre os zips amarelos e a mostarda amarela do predileto, ou melhor do predilecto. A póvoa e os poveiros sempre desconfiados dos banhistas e da arrogância de quem vai a banhos, uma arrogância burguesa, uma arrogância operária, mas sempre arrogância.

E foi no bar da praia, provavelmente no meu décimo sexto ano de póvoa, que conheci a sério os primeiros poveiros, bons de bola e bons de música, que reencontro hoje com o mesmo prazer daqueles fins de tarde para uma partida de bola na areia, um banho, e um fino e tremoços num bar que não resistiu ao tempo como os azulejos.








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