quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Talvez cardiologista?



“Penso que este método, de uma pessoa se transformar num trapo sem vida, terá significado para mim ao longo da vida. A arte de ser pisado conservando a dignidade.”

Tomas Tranströmer. As minhas lembranças observam-me. 1993.



A alguns dias de uma eleição importante interessar-me-á, nesta crónica, não particularmente quem se propõe ser eleito, mas fundamentalmente quem os elege: o chamado povo.
O povo não gosta dos políticos. O povo vota sempre contrafeito. Às vezes dá a sensação que o povo só vota pelo desprazer de mais tarde afirmar: nunca mais voto nele. O povo é assim. Não reconhece aos políticos a sua tarefa. E pior: inveja-os. Estupidamente.
Ainda bem que os políticos nunca ficam zangados com o povo. Há claramente marcada, na genética de um político, a tara do masoquismo. Mas lá andam eles, os políticos, sempre por ali, perto do povo, à espera de um beijinho ou de um abraço que fique bem na televisão, na fotografia. Mas o que acaba por ser realmente notícia é o insulto ou a desfeita que o popular sempre solícito estende à passagem do político.




O político aceita, contrafeito é certo mas aceita, o rótulo de filho da mãe. Vem no pacote do kit do político. E é uma sorte que assim seja. O povo acha que os políticos são uns sortudos e não os desgraçados que efetivamente são. Não há dinheiro nem reconhecimento público que pague tanta maçada. O político não tem vida privada e o seu passado e presente são escalpelizados até à exaustão. Tu sabes que o fulaninho, no infantário, roubou um iogurte na cantina? O político é um réu em permanência.
Enquanto o popular é divertido quando bebe uns copos, o político é um inveterado alcoólico. O político levanta-se da cama – dormiu mal pois no seu partido estão, aí sim, a “fazer-lhe a cama” – e logo encontra à porta uma manifestação dos apanhadores de amêijoa indignados pela portaria assinada.

O povo, aliás, está sempre indignado. A característica do popular quando se lhe põe um microfone à frente é só uma: indignação. Minha senhora estou indignado pelo que estão a fazer ao meu subsídio de refeição, como vê estou magríssimo. Caro jornalista estou há trezentas horas à espera de um exame médico, isto é uma vergonha. O popular, como o político, sabe perfeitamente o que não vende. Nunca esperaríamos que um popular dissesse (ou que o jornalista se enternecesse com) estou satisfeitíssimo com o atendimento médico e com a conta do hospital, veja lá que me fizeram uma operação que custou ao estado 3.345€ e vou pagar apenas 14,35€. O político e o popular complementam-se assim, em sociedades civilizadas como a nossa, muito bem. O político é masoquista mas dá ares de sádico, o popular é sádico mas queixa-se da violência masoquista do político.



Em bom rigor o povo não existe. O que existe é um conjunto de populares. Não existe um sentimento de povo, mas a soma infinita de interesses particulares. Quando o político vai ao mercado na reta final das campanhas ele nunca ouve propriamente o povo, ele ouve os populares. Ele ouve o problema particular de saneamento, o muro que está a cair e que pressuroso, logo ali, se propõe a resolver.

O político (não filho da mãe) ilude-se que o povo o vai conservar no coração ou numa lápide anos mais tarde numa rua anódina da terrinha onde nasceu. Contudo o coração do popular é seletivo e só se abre a quem tiver poder para lhe fazer o jeitinho de que ele tanto precisa. Se ele não tem poder já não interessa, vai para a reciclagem. Mas ainda assim, magnânimo, dar-lhe-á anos mais tarde o nome da rua que o político tanto ambicionou. E um dia ao morador da Rua Joaquim António um outro popular o vai interpelar pelo significado da toponímia. O morador irá dizer: sei lá ó Pires quem é esse gajo, nem me interessa, talvez cardiologista, quem sabe?



As coisas são efetivamente assim. Mas não convém falar muito nisso. Não vão os políticos (mesmo aqueles que enfaticamente dizem que o não são) um dia faltarem-nos como os apanhadores de fruta, ou as costureiras, ou os picheleiros. Isso sim … seria uma tragédia.


Publicado in O Comércio de Guimarães (30.09.15)

Fotografias de NICK VEASEY (X-RAY)

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