MACHO MAN

 

 

Um dos “novos” reacionarismos que tenho imensa dificuldade em entender é a nova tendência, alimentada por influenciadores e movimentos políticos que propagam e se alimentam do ressentimento, da superioridade e prevalência do homem relativamente à mulher. E não me refiro sequer à ideia do macho man, a qual, confesso, sempre achei uma certa piada estética e sociológica, com os homens impecavelmente vestidos, de olhar sobranceiro sobre a fêmea, como galos num galinheiro, mas da “nova” tendência de anular e subjugar a companheira, de a ter domada e obediente como um cão altamente treinado. 

A estupidez masculina chega, por vezes, a ter uma certa graça. Este tipo particular de estupidez já não a tem, pois cria e induz comportamentos que, muitas vezes, redundam em violência.

 



Apesar de já ter nascido há uma razoável quantidade de tempo, este tipo de ideias e comportamentos são-me particularmente estranhos e surpreendentes - na altura em que era jovem, mas sobretudo hoje-, já que a rapaziada da minha geração tinha do machismo mais bazófia do que propósito. Na verdade, enquanto adolescente e jovem adulto, a arte da sedução dava mais prazer (muitas vezes) do que a conquista propriamente dita. A sedução é um ato de liberdade e não de dominação. O amor ou a paixão a ela subjacentes, também. Entender que era muito mais divertido o coito, do que o couto, era o chão básico das relações.

 


Só quem não percebe nada de mulheres – e por isso as aprisiona, em vez de as libertar – é que tem a noção de que as mulheres são domesticáveis, quando elas têm muito menos tendência para a docilidade do que nós. A nós basta uma cerveja, tremoços, amendoins e um jogo de bola, para o mundo se acalmar e fazer todo e o mais completo sentido, elas precisam sempre de um alinhamento astral (raríssimo!) para estarem tranquilas. É da sua natureza. Portanto o domesticado armar-se em domesticador é um erro e uma falácia e pode, inclusivamente, alterar (de forma perigosa) o sentido de rotação da Terra. Digo-o eu, que fui criado (e muito bem) por um conjunto notável e extenso de mulheres.

 



A nossa masculinidade não precisa do domínio para se afirmar, nem sequer fica em causa com a liberdade das mulheres. Enquanto a feminilidade é complexa e não invejável, a nossa masculinidade afirma-se e consolida-se em coisas simples como: ter uma resposta rápida, autoritária e convincente face a uma situação inusual, pôr um dispositivo eletrónico a funcionar, ou mudar um pneu. Como esta última sempre me escapou, concentrei-me com afinco nas duas primeiras.

E, sobretudo, nunca tergiversar em relação àquilo que sabemos (ou julgamos saber). A orientação geográfica é daquelas vantagens masculinas das quais nunca podemos abdicar para as mulheres, pois a cabeça delas não percebe nada de linhas retas, tem algoritmos a mais, enquanto a nossa vive na mais linear simplicidade geométrica. 

 

Antes do milagre do GPS nunca deixei nas mãos, e sobretudo na cabeça, de uma mulher a responsabilidade de ir do ponto A para o ponto B. Aguentei sempre, sem fraquejar, as invetivas desesperadas e a frase provocadora de não achas melhor parar e perguntar? Nunca.
    Agora com o GPS, que elas adoram (!), há que saber usá-lo com parcimónia. Usa-se a primeira vez, mas não se pode dar parte de fraco à segunda. Na segunda e nas seguintes desliga-se o GPS e diz-se, com particular autoridade, é escusado e sei onde é. E é deixá-la falar e protestar, não podemos dar parte de fraco. E mesmo que nos enganemos (o que é raro ;)) há que ficar sempre com aquele ar de que nunca nos enganámos. Elas ficam na dúvida pois a simples mente masculina acaba por encontrar, com facilidade, e sempre, uma referência apaziguadora. Elas, nisso, têm mais dificuldade.

Quando a tarefa for terminada há que não esquecer de rematar a chegada ao destino com um tranquilo: estás a ver como não era preciso usar o GPS. Aqui, no entanto, é preciso ter muito cuidado no tom, pois as mulheres irritam-se com a nossa irritação, enquanto nós evitamos (impecavelmente) a delas.

Apaziguar e alimentar a masculinidade é fácil em gestos e atitudes simples como esta, da nossa superior capacidade de orientação.

Apaziguar e alimentar a feminilidade é que é bem mais difícil. Mas isso é um problema delas. E outra das coisas que alimenta a nossa masculinidade é a nossa superior capacidade de evitarmos os labirintos. Principalmente aqueles que não são nossos.



“E depois de ter esboçada ao barbeiro o argumento da peça disse-lhe que gostava imenso da música mas pó de arroz na cara, não!...que não era desses!”

Almada Negreiros. A Engomadeira. 1915.


Publicado in O Comércio de Guimarães a 1 de abril de 2026


Imagens:

- Marcello Mastroianni. 8 e meio. Fellini.1963.

- Alain Delon. Rocco e os seus irmãos. Visconti. 1960.

- Alberto Sordi. Sotto il sole di roma. Castellani. 1948.

- Cartaz cinematográfico. Adeus Macho. Ferreri.1978.

- Marcello Mastroianni. 8 e meio. Fellini.1963.


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