quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O trabalho







“A coleção de imagens recolhidas há trinta anos pela Associação Muralha define uma espécie de paisagem redentora desse resgate: são milhares de clichês de vidro que nos relançam no labirinto de uma memória que deseja dialogar connosco.”
João Lopes. A Cidade da Muralha. 2011.








Está a decorrer no Guimarãeshopping (piso inferior) a exposição “O Trabalho na coleção fotográfica da Muralha” organizada pela Muralha e pelo Cineclube de Guimarães e integrada nas Festas Gualterianas deste ano. Esta é uma exposição de fotografias antigas de Guimarães, e da região, só que selecionadas segundo o critério de mostrar o trabalho numa época que vai desde o final do século XIX até às primeiras décadas do século XX. São quase nove dezenas de fotografias expostas pertencentes a uma coleção de 5646 clichês fotográficos inteiramente digitalizados no âmbito do projeto Reimaginar Guimarães, integrado na Capital Europeia da Cultura de 2012.



Os negativos das fotografias da exposição são clichês de vidro dos quais, certamente, a maioria esmagadora de nós nem sequer se lembra, pois nunca os viu. Estamos a falar de uma realidade com 100 anos, numa altura em que a técnica fotográfica tinha por base o vidro que alojava um preparado gelatinoso de brometo de prata que era foto sensibilizado através da fotografia. Estavam ainda longe as películas de acetato e ainda mais distante fotografia digital que hoje é tão comum. Alguns exemplares desses clichês fotográficos, hoje à guarda do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, estão também em exposição para que os visitantes se apercebam dos suportes fotográficos iniciais, cuja produção comercial acabou em 1940.
Os clichês fotográficos pertenciam à Foto Moderna e à sua antecessora Foto Elétrica Moderna, propriedade de Domingos Alves Machado (1882-1957) ao qual se atribui grande parte das fotografias e que revelam aspetos da cidade, da vida, dos costumes e dos ofícios de Guimarães, constituindo um importante património coletivo que a Muralha, em boa hora, comprou na década de 80 do século passado e que vem revelando, como agora, aos olhares mais curiosos e interessados.





A distância técnica encerra também uma distância de tempo e de costumes, que se procura, nesta exposição, resgatar pela luz que iluminou as pessoas dessa época. A perspetiva da exposição é um olhar sobre o trabalho e os trabalhadores, cuja concepção esteve nas mãos e na cabeça de Miguel Oliveira e Nuno Vieira, ambos pertencentes à Secção de Fotografia do Cineclube de Guimarães, com o elegante design de Alexandra Xavier. Este é um olhar sobre os ofícios e os artífices que construindo a sua vida pessoal davam a forma à sua comunidade moldando-a pelo trabalho. Uma visão de época que não esconde, pelo extraordinário silêncio das imagens, uma certa angustia pela redução do trabalho, hoje, a um custo de produção e não a uma afirmação coletiva da capacidade das comunidades. 
Esta exposição revisita Guimarães, as indústrias que a marcaram até aos dias de hoje (curtumes, cutelarias, têxtil), mas também o trabalho do campo, o artesanato, os serviços, a escola, a ferrovia, entre outros ofícios. 







Não é comum este género de exposições ser feita num espaço privado de fruição pública e com objetivos comerciais como é o Guimarãeshopping. No entanto a aposta nesse espaço tem a ver com duas razões fundamentais: a necessidade da cultura sair dos espaços comuns de exposição chegando a mais pessoas e conquistando novos públicos e, por outro lado, a percepção da sensibilidade e profissionalismo da equipa diretiva do Shopping que desta forma, e mais uma vez, apoia a cultura no meio em que se insere. Este caminho é novo e, estou certo disso, é um caminho com futuro.
Integrada nas Festas Gualterianas esta exposição conta ainda com o apoio da Oficina, com a datação fotográfica do Francisco Brito e Miguel merecendo, certamente, e pela excecional recepção na inauguração, uma ou mais idas, pois o nosso olhar irá certamente encontrar novas perspetivas a cada visita. Merecerá cada minuto em que se olha e cada minuto será, seguramente, pela força das imagens, diferente do anterior.



Publicado in O Comércio de Guimarães  (05.08.14)

Fotos: Paulo Pacheco

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