quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A carta

3761902884_5be8ec1bcd_z

Foto_Ana_Wilder_in_http://www.flickr.com/photos/annawilder/3761902884/

“Tinha bebido a caligrafia dela. Tinha-lhe comido o nome. Tinha feito um enorme esforço para não comer a carta toda”

Philip Roth. Indignação. (2009)

 

Caro(a) amigo(a),

Espero que esta carta te vá encontrar bem que ▄▄▄… nós por cá vamos andando, aproveitando este magnífico sol de Fevereiro na brandura deste Inverno tímido e, por isso, ▄▄▄rad▄ amigo.

Já há muito tempo – nem sei sequer quanto - que não escrevia uma carta com a minha caligrafia. Já há muito tempo que não assentava uma caneta na minha mão, com os meus dedos mindinho e anelar da minha mão direita suportando o peso e o trabalho▄▄ dos outros três. E é bom reencontrar a minha caligrafia, apesar de incoerente face à tremenda falta de prática dos meus últimos anos, em vez da letra Times New Roman ou Calibri. É bom reencontrar o papel vazio e ir escrevendo sem que nenhum corrector ortográfico me sublinhe a vermelho, para meu contragosto, a palavra direcção ou a palavra actor ou a palavra baptismo ou o mês de Fevereiro com força de maiúscula. Assim é ▄ p▄▄ o novo acordo ortográfico. Como deves saber os países de língua portuguesa entenderam-se quanto à grafia de algumas palavras que durante anos penámos para não errar no ditado. Tantos anos passámos nós a ler mentalmente arquitectura para não errar na escrita e agora a reduzem-na à vulgar arquitetura. O olfacto também sai a perder o “c” e a Avenida da Liberdade fica toda minúscula e o espermatozóide perde o acento e o hei-de separa-se para sempre. Vamos perder muito acento circunflexo também … mas ficamos a ganhar ▄▄ três novas letras: o K, o Y e o W para utilizar nas mensagens de telemóvel.

Meu Deus! quanto desperdício de neurónios que tanto musculamos aos longos dos anos com as subtilezas da Língua Portuguesa. Ou deverei já dizer língua portuguesa, tudo em minúsculas e com a mesma falta de respeito que a língua de vaca sempre nos mereceu, pelo menos fora do contexto ▄▄ p▄▄ culinário. A solução mais adequada será fazermos como o Miguel Sousa Tavares que no fim de cada artigo refere ter escrito “de acordo com a anterior ortografia”. Ou seja, não perde o que aprendeu e não tem a maçada de se adaptar a uma nova gramática.

A minha carta é sobre a saudade. A saudade de falar contigo e a saudade, agora aplacada, de escrever uma carta. De sentir a folha e o desenho das palavras, da caligrafia mais esticada quando as ideias são mais rápidas que a mão. A saudade de algo ▄▄▄▄ como escrever com a absoluta necessidade de tempo e concentração. Algo para além do e-mail de frases curtas e pouco ligadas. Cheio de erros e imprecisões. Mas ninguém liga pois é escrita digital e ▄▄ ao digital tudo se perdoa. Mesmo até o “inclino” que alguém me escreveu em vez de “inquilino” me fez inclinar de perdão e sorrir logo pela manhã. Mas o e-mail’s é uma “primeirinha” face ao facebook ou ao twitter. Estas ferramentas inauguraram uma espécie de escrita precoce … que antes de ser já o foi. Uauuuu, hehehe, xD, é a tentativa de dizer alguma coisa quando nada se tem para dizer. Uma espécie de comunicação gutural e onomatopaica que às tantas diz mais que as linhas que te escrevo agora, apesar de eu pensar exactamente o contrário.

Mas, como sabes, a escrita de uma carta tem um ritual inimitável, feito de esperas e abstracções, mesmo que o que sobre seja apenas papel amarrotado. Não será esse agora o caso, pois vou terminá-la e enviá-la por correio, com selo e tudo. É necessário aproveitar enquanto os correios ainda permitem enviar correspondência, qualquer dia entre os livros e os sabonetes surgirá um aviso a dizer “não se expede mais aqui”.

Assim sendo,                                 teu

Aceita um forte e terno abraço deste √ amigo … ▄▄▄▄▄▄▄▄ e escreve-me. Uma carta, é claro.

 

Publicado in Comércio de Guimarães 09.02.11