quarta-feira, 1 de junho de 2011

A arte de embirrar

 

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O passar dos anos não nos dá, em bom rigor, muitas coisas particularmente interessantes. Mas há sempre algumas zonas que melhoram com a idade, nomeadamente ao nível do pensamento e dos estados de espírito por ele induzidos. No exacto meio caminho entre a indiferença e o ódio está esse sentimento trabalhado que é o embirrar com algo ou com alguém. Com a idade as coisas e as pessoas deixam de ser inteiramente brancas ou inteiramente negras, para as começarmos a situar e classificar numa enorme paleta de cinzentos. E o embirrar é, claramente, a arte do cinzento.

 

Embirrar não deve ser uma consequência de estar mal-disposto, deve ser algo de mais pensado. Aliás os mal-dispostos dão mau nome ao embirrar, pois embirram com tudo. E o embirrar só é eficaz e edificante se for selectivo e a arte de embirrar será tanto mais bonita quanto mais original e mais solitário for o nosso embirranço.

Por exemplo na actualidade local embirrar com a Cristina Azevedo está claramente out. Ter embirrado com a presidente da Fundação Cidade de Guimarães no início teria sido, eventualmente, prudente e algo excitante, embirrar agora é uma perda de tempo, energia e bom-senso.

Nestas eleições legislativas não dá para embirrar com o Sócrates, ele é mau demais para merecer da nossa parte esse exercício; e o execrável é negro não é cinzento. Já embirrar com Paulo Portas e os seus bonezinhos é mais estimulante. Está na mesma linha de se embirrar com um tio que num jantar de família não se cala de falar de si próprio. Embirra-se com quem dá seca, apesar dos eventuais méritos de quem a dá.

 

Embirro com gente que discorda por sistema pois pensa que isso lhe dá ares de inteligência. Embirro com os nacionalismos europeus e embirro solenemente com o Barcelona (o clube, não a belíssima cidade) e aquela sua maneira de jogar futebol sempre a dizer “olhem p´ra nós que tão bem jogamos”. Embirro com o carnaval em Portugal e o S. João no Porto, ambos por uma questão de sanidade mental e embirro particularmente com festivais de música que, por vezes com boas bandas, têm uma assistência que está lá para confraternizar e não faz a mínima ideia de que um festival de música deve ser feito precisamente para ouvir música. Embirro com blasers com botões amarelos normalmente acompanhados com sapatos de berloques. Embirro com gente que conduz de boné (se estiver virado ao contrário já passa a ódio) ou o hábito bem português de, por estas alturas de calor, estar em tronco nu. Embirro com atrasos. Embirro com saudosismos explicitados, isto é, não há mal nenhum em ter saudades do que se fez ou teve, mas nunca por oposição ao que se faz ou existe. Embirro com o egocentrismo e com gente que se enquadra sempre em qualquer tema de conversa que lançamos à discussão; seja a conversa sobre cerejas ou sobre física nuclear há gente que vê qualquer tema para falar de si próprio … sim, tínhamos uma cerejeira e eu … ou a cisão do núcleo faz-me lembrar uma altura em que eu. Há gente assim que merece que falemos, a seguir, da homossexualidade recalcada, só para ver como enquadram o tema na conversa do eu. A propósito, embirro com o moralismo e, nos antípodas, com o exibicionismo. Embirro com motas de água na praia. Embirro com a Maria José Morgado, com o Ricardo Espírito Santo, com os intervalos publicitários na TV e com a via-sacra telefónica para apresentar uma reclamação, se tem um sinal na perna esquerda marque o 3, se tem um sinal na perna direita marque 2, e quando se chega ao fim já nos esquecemos do motivo do telefonema. E mais alguns de que agora não me lembro, mas os estimo como coisa minha.

 

E já agora … votar em Sócrates no domingo é, claramente, embirrar com Portugal.

 

publicado in O Comércio de Guimarães

4 comentários:

Rui Silva disse...

Tu muito embirras...

Belo texto, Rui.

Cultura disse...

POR UMA CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA DOS CIDADÃOS

Senhor Presidente da Câmara Municipal de Guimarães
Senhor Presidente do Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães

No dia 29 de Março de 2011, o Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães tornou pública uma moção em que notou ser “indispensável criar condições para relançar a confiança e o entusiasmo em torno do projecto, de forma a garantir a adesão e apoio da comunidade vimaranense à Capital Europeia da Cultura 2012” e recomendou “ao Conselho de Administração que promova uma reflexão estratégica com vista a adoptar práticas que permitam uma ligação reforçada entre a CEC2012 e os agentes culturais, económicos e sociais de Guimarães e da região”.

Esta tomada de posição foi entendida pelos cidadãos signatários como um claro sinal de esperança de que ainda seria possível uma Capital Europeia da Cultura que envolva os cidadãos de Guimarães e promova uma imagem positiva da cidade.

No entanto, assim não o entendeu o principal destinatário da recomendação, o Conselho de Administração da FCG. Nos dois meses que entretanto decorreram, aprofundou-se o afastamento entre a entidade organizadora da CEC e os cidadãos e agentes culturais, económicos e sociais de Guimarães.

Com o recente afastamento do Director de Projecto, a estrutura da FCG ficou amputada do único elemento que funcionava como elo de ligação entre as diferentes áreas de programação. As sucessivas declarações, por parte do CA, de que a saída do Director do Projecto não acarreta um acréscimo de dificuldades, põem a claro um manifesto défice de percepção da realidade.

Os cidadãos de Guimarães já deram mostras de que, quando mobilizados, são capazes de dar respostas positivas e entusiásticas a situações adversas. A mobilização ainda é possível. Não será fácil recuperar o tempo perdido, mas ainda se irá a tempo de construir uma Capital Europeia da Cultura que dignifique Guimarães e Portugal.

Os signatários não se resignam a vir a ser os que tiveram nas mãos uma oportunidade única e a desperdiçaram. Convictos de que o divórcio entre o actual Conselho de Administração da FCG e os cidadãos de Guimarães é irreversível e nocivo para o sucesso da Capital Europeia da Cultura, apelam ao Presidente da Câmara Municipal de Guimarães e ao Presidente do Conselho Geral da FCG para que usem os meios ao seu alcance para que se encontre uma solução que infunda uma nova esperança neste projecto, dotando-o de novos protagonistas, que se identifiquem com Guimarães e que introduzam uma dinâmica no processo que possa suscitar o reforço do entusiasmo, da vitalidade e da energia dos vimaranenses.
Se concorda com este apelo público, assine o abaixo assinado POR UMA CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA DOS CIDADÃOS em www.peticaopublica.com

Rui Vítor Costa disse...

Tanquiu Rui.
Bela petição "Cultura" num post sobre o embirranço...

uhooi disse...

Very nice this blog!!
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