quarta-feira, 29 de junho de 2011

Fresco

 

friends friends_by_erika_flickr

Não há nada mais fresco que a amizade. Outros bons sentimentos, como o amor ou a paixão, podê-lo-ão ser, mas não têm a leveza da amizade. A paixão por ser demasiado forte, o amor por ser demasiado profundo e complexo. A amizade não. A amizade é simples e tudo perdoa (se não perdoar não é amizade, será quando muito simpatia).

E neste tempo de calor, longe dos natais onde se desbaratam mensagens à custa do remorso ou do coleccionismo acrítico de friends no facebook, será importar resgatar tão nobre predisposição que a nossa alma nos deu: a possibilidade de considerarmos alguém amigo. Não há nada mais refrescante do que uma conversa, uma visita, ou um par de cervejas divididas no silêncio cúmplice dum verão.

 

 

Parece que, de repente, passamos a viver num país diferente, e manifestamente melhor. A tomada de posse dos membros da Assembleia da República e do Governo deram-me essa sensação de agradável brisa fresca no insuportável inferno onde fomos progressivamente metidos nos últimos anos.

O mérito é todo de Passos Coelho. Não deve ter sido fácil arrumar com a tralha partidária e apostar em gente jovem e independente cujo percurso de vida foi feita no mundo do trabalho e não nos corredores partidários. Essa determinação foi, do meu ponto de vista, um bom sinal para o país e para as imensas dificuldades que nos esperam (sim, porque a situação económica e financeira continua a mesma).

Se as novidades nas Finanças e na Economia nos trazem ministros jovens e desligados dos grupos de interesses que minam sistematicamente o bem-comum, se na Educação se perfila um homem cuja preocupação fundamental é o rigor e a exigência e não a do vazio travestido de método educativo, ou simplesmente a arte de fazer vento e mostrar que se está a fazer alguma coisa mesmo não estando a fazer nada, como me aconteceu, outrora, nos corredores do Convento de Mafra enquanto cadete do nosso glorioso exército, a cereja fresca em cima do novo bolo foi, sem dúvida, a eleição de Assunção Esteves para presidente da Assembleia da República. Aposto que, finalmente, vai dar um certo gozo ligar o Canal Parlamento só para ver aquele interminável sorriso. Uma mulher no segundo mais importante cargo do Estado já seria por si só uma boa notícia, a eleição de uma mulher inteligente – e, gloriosamente, despretensiosa - é um acontecimento refrescante para a Democracia nacional.

 

 

E era bom que o vento de mudança se estendesse a outros sectores da sociedade portuguesa. Aos outros partidos mas também às instituições nucleares da nossa sociedade. Quanto ao PS os candidatos assumidos, apesar de jovens, têm quase tantos anos de partido como de existência, mas isso resolve-se se souberem arrumar a sua própria tralha partidária. E nem sempre os anos de actividade partidária tornam as pessoas velhas: no PS, por exemplo, Maria de Belém há-de parecer sempre uma recente aquisição da juventude socialista, enquanto o ex-ministro Santos Silva parece ter sido parceiro político de Afonso Costa. Mas há outras áreas a começar pelos sindicatos que necessitam repensar-se para terem um papel novo, responsável e atento, numa conjuntura particularmente difícil e exigente como a que atravessamos. Os sindicatos assemelham-se a monarquias onde os mesmos se perpetuam no poder até à exaustão. Gosto pessoalmente de Carvalho da Silva mas já há muito que deveria ter assumido outras funções, noutro lado. João Proença e Mário Nogueira parecem inamovíveis. E já vi tantas vezes na televisão a Ana Avoila e o Bettencourt Picanço que se os vir ao vivo lhes darei, muito provavelmente, um abraço.

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