quarta-feira, 26 de junho de 2013

Os saldos



“(...) se queremos tirar do atoleiro em que está uma geração inteira, de gente potencialmente digna de aproveitamento, temos que tomar a educação não como uma verba a mais, mas como um princípio de vida, e uma sensibilidade pátria.”
Agustina Bessa-Luís. Dicionário Imperfeito. 2008.



Das coisas que eu não percebo há uma que me dá uma angústia especial: os saldos. Mas das coisas que eu não entendo essa será porventura a mais acessível ao meu entendimento. Apesar disso a zona do meu córtex cerebral que deveria processar a informação relativa ao assunto em causa permanece com a atividade característica de um pedaço de betão. Desconheço ainda hoje quais as épocas de saldos, qual a lógica a que a elas preside, qual a dimensão e significância percentual da coisa.





Admito que ter sido criado por um magnífico trio de tias comerciantes que nunca promoveram um saldo na vida pode ter ajudado à minha presente desqualificação. Contudo a lógica consumista das últimas décadas deveria ter-me dado ferramentas para não me sentir perdido, e quantas vezes intimidado, em época de saldos.
Ainda a passada semana precisei de uma camisa e entrei numa loja em saldos. A primeira coisa que se nota é a maior afluência de clientes e aquela sensação desconfortável de transporte público apinhado. Como eu permaneço a destempo, apesar da idade, com os ensinamentos que me deixaram na infância, para dar lugar aos mais velhos e às senhoras nos autocarros, acabo por me deixar ludibriar com alguma facilidade no processo implacável dos saldos. De repente a camisa que escolhi está nas mãos de uma senhora. Pousei-a apenas uns breves segundos enquanto, cheio de vontade em aprender, dava uma vista de olhos noutros artigos. E lá vai a camisa, desabotoada e enorme, nas mãos de uma senhora pequenina que parece ter ganho a loteria nacional. Só me resta adaptar e esperar que ela largue a presa e eu solte a hiena que há em mim atacando no momento certo.

Se a minha infância não me preparou para a selva dos saldos o meu presente deveria tê-lo feito. Tenho uma mulher que sente no ar a vibração dos saldos, à imagem da volúpia animada do cheiro de comida no cinema de animação. Já assisti à sua chegada à loja pouco depois dos cartazes de saldos terem sido afixados. Às vezes fico com a sensação que a minha mulher sabe dos saldos antes das funcionárias e, eventualmente, antes dos concessionários. É possível que as mulheres, algumas mulheres como a minha, tenham não só um sexto, mas também um sétimo sentido para estas coisas de compras e saldos. Nunca a acompanho nas gloriosas jornadas dos saldos porque não aguento a pressão mas também, suponho, porque iria atrapalhar os movimentos felinos de uma mulher talhada para a oportunidade, que chega a casa estourada mas feliz imersa nos despojos de guerra. A minha mulher é uma profissional que já não se contenta com o saldo vulgar mas vai ao limite da possibilidade máxima do saldo, como um mergulhador que entra em apneia para além das suas possibilidades físicas. E se eu nunca sei o meu número de calças ou de camisa, hesitação fatal no mundo predatório dos saldos, ela consegue saber o de todos e para todos trazer qualquer coisa arrancada das profundezas do preço irresistível. Para se ser bom em saldos é importante ter técnica e intuição e estar no topo, como os bons profissionais do desporto, das capacidades físicas e psicológicas. Eu não tenho, reconheço com alguma mágoa, nenhuma dessas qualidades.




A educação está em saldo há tempo demais neste glorioso país que, sem riquezas naturais que o salvem, conseguiu por breves momentos históricos estar à frente quando apostou no conhecimento e no saber. Já se fizeram os saldos dos 20%, já lá vão os dos 50%, e este Governo apostou agora nos  80%. É o arrumar da coleção sem perspetivas de uma nova. É a liquidação total da loja e dos funcionários que, bravamente, se recusaram por estes dias a fechá-la. E apesar de alguns clientes vociferarem, mais por patética ignorância do que por maldade ou recalcamento, é possível ainda travar as consequências da loja vazia e sem futuro. A começar por mim, militante do PSD, que não se revê na deriva ideológica de um partido fundado noutros valores e com uma gerência desadequada aos seus princípios e à sua história. A estes saldos seguramente não irei, nem participarei com o meu silêncio.



Publicado in O Comércio de Guimarães
Fotos Alexandre Coelho Lima

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