quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Uma questão de idade


“(...) é inimaginável qualquer fase da vida mais adiantada do que a nossa. Às vezes já vamos a meio da fase seguinte antes de darmos conta que entrámos nela.”
Philip Roth. O animal moribundo. 2006.






A idade pode trazer muitas coisas, umas úteis, outras arreliadoras, pode trazer experiência, pode dar uma perspetiva mais suave sobre as coisas, pode sedimentar a cultura e o gosto, pode gastar a vista ou a agilidade, mas a sua característica mais desconcertante é ser sempre inesperada. A idade é uma espécie de festa surpresa a que vamos – a partir de certa altura visivelmente contrariados - todos os anos. Mesmo sem o querermos o tempo encarrega-se de a preparar. Sem contemplações.





E o que mais arrelia no passar dos anos é termos ainda fresca a ideia daquilo que pensávamos dos outros que a certa altura eram mais velhos que nós, aquela distância tolerante e cínica com que olhávamos para as coisas e para as pessoas que eram mais velhas. Por isso é frequente carregarmos connosco preconceitos dos tempos em que éramos mais novos. Na área do emprego isso é incrivelmente claro, já que há uma resistência de chumbo em empregar gente mais velha.
É evidente que a atual situação não tem piedade de ninguém, sejam mais novos ou mais velhos, mas um dos factos mais claros neste domínio do emprego é que os empregadores torcem sempre o nariz quando lhes aparece alguém com mais de 40 anos a candidatar-se a um emprego. Muitos dos anúncios estabelecem, frequentemente, um limite de idade (normalmente os 35 anos!). E será que já alguém pensou verdadeiramente na razão pela qual se estabelecem esses limites? Desde que não seja para carregar pesos ou proceder à armação de relógios não vislumbro o porquê da limitação. Dirão alguns que serão os vícios a grande restrição. Os vícios? Há preguiçosos de todas as idades e quanto aos vícios relacionados com dependências de maus hábitos também não me parece fazer grande sentido. Pelo menos os meus vícios foram gloriosamente apreendidos na juventude, e a idade não os tendo eliminado pelo menos refinou-os. É na juventude que se testam os corpos, que se levam ao limite as nossas capacidades para ver até onde a máquina aguenta. Depois de gloriosamente conhecidos os limites é só mantê-la a funcionar.
O preconceito da idade é, a este nível, uma tolice. A aprendizagem tem a ver não só com as capacidades de cada um mas também, fundamentalmente, com aquilo que se aprendeu com os erros cometidos. E quem mais errou estará certamente mais capacitado para evitar novos erros, mas essa é uma asserção frequentemente desprezada.






Pertenço a uma minoria de portugueses que gosta de Cavaco Silva. Aprecio-lhe a constância – mesmo a do erro – e a serenidade prospetiva e equilibradora com que ele olha para Portugal. A grande parte dos seus discursos (escritos) têm-se constituído como peças políticas consistentes que vale a pena ler, mas que ninguém lê pois acabam geralmente destruídas por graçolas políticas pouco inteligentes e aparentemente jovens. Arrumaram-no, infelizmente, na estante dos velhos e o país não aproveita a sua experiência enquanto político e enquanto homem. Também na política se criou a ideia de que é necessário ser jovem, para (pelo menos, digo-o eu) se fazerem asneiras com convicção e sem arrependimento. O episódio do referendo à co-adopção por casais do mesmo sexo, liderado pela JSD, é mais uma peça no monumento da asneira fresca e jovem. Pertenço ainda a outra minoria, distinta da primeira, que acha notável o empenhamento de Mário Soares. Malgrado algumas opiniões mais desabridas e disparatadas, acho digno de consideração que um homem se desloque no dia do seu aniversário, o octogésimo nono, para apoiar a luta dos operários de Viana do Castelo. Era mais fácil ficar em casa ou na Aula Magna, mas não, o homem achou que devia tomar posição e tomou-a. Acabei por achar também uma certa graça (perdoem-me) ao facto de Soares ter remado contra a recente onda de “canonização” do Eusébio.




A idade é hoje muitas vezes, tal como a orientação sexual ou a religião, forte objeto de preconceito. A idade aparece frequentemente como argumento no combate a uma ideia diferente da nossa. E isso é tanto mais estúpido quanto ser preconceituoso com a juventude acarreta, geralmente, uma grande dose de hipocrisia e, por outro lado, ser preconceituoso com alguém mais velho é, muitas vezes, sinónimo de uma preocupante e egocêntrica ingenuidade.




Fotos de pinturas de Vicent van Gogh. 
De cima para baixo: Carteiro Joseph Roulin, Armand Roulin, Augustine Roulin e  bebé Marcelle e Camille Roulin (todos pintados em 1888).

1 comentário:

Wind disse...

Houve tempos em que a sabedoria das pessoas mais velhas era apreciada, em que não existiam lares “da Terceira Idade”... o que aconteceu? Quando eu era bem pequena, lembro-me de gente nova vir a minha casa pedir conselhos à minha avó... no funeral da minha avó a igreja estava cheia de quem eu não conhecia, pessoas que se aproximaram de mim e me disseram que deviam muito à minha avó pelos seus conselhos, o seu exemplo, a sua forma recta de viver a vida.
Não sei o que se está a passar em Portugal e digo Portugal, porque embora não faltem lares de idade aqui na Inglaterra, em termos de oportunidades de trabalho nunca vi descriminação etária, pelo contrário. Quando comecei a trabalhar na polícia, dois dos meus colegas na escola policial tinham mais de 50 anos – a tal sabedoria que é necessária para desvendar mistérios, discernir mentira da verdade, entre outros.
Agora na escola de enfermagem, sou eu uma das idosas, rodeada de jovens, testemunhando diariamente as vantagens físicas que os meu colegas têm sobre mim e as vantagens de experiência de vida que tenho sobre eles... mas ninguém me negou entrada num curso em que milhares se candidataram e só 150 entraram, por causa de eu ser “idosa”.
De resto, o que é ser idoso? Rugas? Eu sempre fui “idosa”.Desde pequena sempre favoreci a companhia dos mais velhos aos mais novos. Não aprecio Ipods, Ipads, nem sequer tenho máquina de lavar loiça. Acho que as modas mais bonitas foram as do período vintage. Prefiro o Glen Miller ou o Louis Armstrong do que Jay Z ou Ne-yo dos tempos actuais, escolho as Chordettes em vez das Spice Girls e seria mais feliz num dos bailes da minha infância na aldeia, do que em qualquer discoteca da actualidade. Para mim um livro tem folhas de papel e impressão a tinta (desculpem-me árvores – em minha defesa só compro usados) e nuca poderiaser um Kindle...
Em conclusão, a minha opinião pode ser considerada de pouca valia e inclinada, já que para muitos eu sou considerada idosa, mas não é só a idade que é desvalorizada no trabalho em Portugal, por exemplo mulher vs homem. Aqui na Inglaterra, ofereceram-me trabalho, mesmo sabendo que eu estava grávida – duvido sériamente que o mesmo acontecesse em Portugal. Sabem que mais? De repente esta velha, húmida e cinzenta Inglaterra não me parece assim tão deprimente como o costume.