quarta-feira, 10 de novembro de 2010

É bem vista …

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… a utilidade da expressão “é triste”. Por José de Pina (crónica do i):

“No tempo em que Carlos Cruz ainda só fazia perguntas e não dava respostas em tribunal, Álvaro Cunhal respondeu-lhe, num programa, o que achava da homossexualidade, dizendo: "É triste". Cunhal escapou brilhantemente a uma das perguntas mais difíceis que se podem fazer a um comunista ortodoxo. O "triste" integra-se na categoria de palavras que podem significar muito mas que, em determinado contexto, não definem nada. Triste não é elogioso nem ofensivo. Triste não é o mesmo que infeliz, essa sim uma palavra que poderia ser depreciativa. O triste, bem utilizado, não compromete. Lembrei-me deste episódio cunhalesco por causa da posição de Manuel Alegre em relação à greve geral. Começou por dizer: "Não tenho de apoiar ou deixar de apoiar". Ora aqui está uma frase de quem está à rasca; é como o "Não confirmo nem desminto". Sendo Alegre um poeta, esperava mais dele, por exemplo "a greve geral é triste". Vejamos, a greve geral é triste porque o povo está em dificuldades ou por ser uma acção condenável? Perfeito! Alegre entretanto melhorou e agora diz: "A greve geral vai ser um momento de grande significado sindical, político e democrático". Limita-se a definir o que é uma greve geral. É como dizer: "A goleada do Porto ao Benfica foi um momento de grande significado clubístico, futebolístico e desportivo", uma frase que não desagrada nem a portistas nem a benfiquistas. Alegre vai ter de usar os seus dotes semânticos, porque ser apoiado simultaneamente por um partido radical de esquerda e por um partido de direita não é fácil, ou melhor, é triste!”

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