sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Chinesises

 

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Uma das coisas interessantes do jornal i são os articulistas estrangeiros que o jornal traduz. Alberoni, Thomas L.Friedman e o nobel da Economia de 2008 Paul Krugman (na foto, wikipédia).

Hoje escreve a propósito do poder da China e da sua impunidade, usando como pretexto os metais terras raras que os chineses controlam.

O mês passado, uma traineira chinesa colidiu com duas embarcações da guarda costeira do Japão em águas territoriais japonesas. O Japão deteve o capitão da traineira e a China respondeu cortando-lhe o acesso a matérias-primas cruciais. Não havia outro modo de as obter: a China domina 97% da produção de terras raras, minérios com um papel essencial em muitos produtos de alta tecnologia, incluindo equipamento militar. Como é bom de ver, o Japão depressa libertou o capitão.
Não sei o que pensa o leitor, mas esta história parece-me profundamente perturbadora, tanto pelo que mostra da China como pelo que mostra de nós. Por um lado, o caso mostra a uma luz crua a inaptidão da política externa norte-americana, que nada fez enquanto um regime que não oferece confiança se apropriava de matérias-primas fundamentais. Por outro lado, o incidente revela uma China perigosamente disposta a recorrer à força e a desencadear uma guerra económica ao menor pretexto.
(…)

É impossível não ficarmos intrigados com as razões por que ninguém fez soar o alarme, quanto mais não fosse com base em questões de segurança nacional. A verdade é que os responsáveis políticos ficaram simplesmente a ver enquanto a indústria americana de terras raras fechava. Pelo menos num caso, em 2003 - portanto numa altura em que, a acreditar na administração Bush, a segurança nacional dominava a política externa americana -, os chineses empacotaram literalmente todo o equipamento de uma fábrica e meteram-no num barco para a China.
O resultado de tudo isto foi um monopólio que excede de longe as mais desvairadas expectativas dos maiores tiranos do petróleo do Médio Oriente. Mesmo antes do episódio da traineira, a China sempre mostrou predisposição para explorar ao máximo esta vantagem.

(…)

Quais são então as conclusões a tirar deste caso? A primeira e mais óbvia é que o mundo precisa de fontes não chinesas destes produtos. Há depósitos consideráveis de terras raras nos Estados Unidos e noutros países, embora para os explorar e tratar seja preciso tempo e apoio financeiro. O mesmo se passa com uma importante alternativa, a mineração urbana, isto é, a reciclagem de aparelhos electrónicos usados.
Em segundo lugar, a resposta da China ao incidente, lamento dizê-lo, é mais uma prova de que a nova superpotência económica não está preparada para assumir a responsabilidade associada ao estatuto.
As grandes potências económicas, apercebendo-se do seu peso no sistema internacional, costumam hesitar em recorrer à guerra económica, mesmo quando seriamente provocadas - basta ver a indecisão dos responsáveis políticos americanos sobre as medidas contra a política cambial grosseiramente proteccionista da China. Não foi essa a atitude da China no caso. Junte-se isto ao comportamento do país noutras frentes, acima de tudo na política cambial, e desenha-se o retrato de uma superpotência económica pária, que se nega a obedecer às regras. A questão que se levanta é que medidas vamos tomar em relação a isso.

artigo na íntegra

 

Razão tinha esta senhora (que eu adoro desde que vi, e que entro no meu léxico habitual)…

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