terça-feira, 19 de outubro de 2010

Factual

O artigo do “bipolar” Ribeiro e Castro tem a particularidade de recordar alguns factos importantes que no meio da confusão, por vezes, escapam.

«Quando, há uma semana, vi Jorge Sampaio, na RTP, com outros ex-Presidentes da República, a partilhar preocupações e conselhos sobre o dificílimo momento que vivemos, supus que nos iria iluminar com o seu sábio pensamento: "Há mais vida para além do défice." Vi que não - também acabou, pelos vistos, rendido à realidade. (…)
José Sócrates é o homem errado no tempo errado. (…) No início dos seus mandatos, inventou, com Vítor Constâncio, aquele famoso défice público que nunca existiu: 6,83% do PIB... Tanto "rigor" que até "acertava" na centésima. Hoje, não acerta nem na décima, nem na unidade. Garantindo para este ano um défice de 7,3% (meio ponto acima da fantasia de 2005), ainda não disse uma só palavra de explicação para o facto de, no fim do primeiro semestre, em ano de "austeridade", se terem atingido os 9,5% do PIB - acima do ano anterior -, impondo o recurso recente a medidas correctivas drásticas.
(…)

Recebeu do anterior governo PSD/CDS um programa consistente de combate à evasão fiscal, com o que pôde arrecadar volumosas receitas extra. Regressado de férias, no Verão de 2005, foi visitar festivamente uma repartição de Finanças para celebrar o "brinde" - mas, anos a fio, nem esse prémio devolveu à economia, traindo a solene promessa do Estado de que todos pagaríamos menos impostos quando aqueles que não pagavam os passassem a pagar. Alimentou um Estado glutão - um Estado em engorda, que acumula e gasta tudo aquilo a que deita a mão.
Surdo a todos os alertas, prosseguiu e agravou a ruinosa rota dos endividamentos: da dívida pública, do excessivo endividamento privado, da dívida externa - deixando criar o quadro que, hoje, a todos nos asfixia. Íntimo talvez do Tio Patinhas, urdiu, gerando a demissão de Luís Campos e Cunha, o célebre PIIP de quinquiliões de euros, que o poria "na História" e de que ainda resiste, a mexer, o TGV. Devoto do poder salvífico do "investimento público", remédio milagroso para toda a crise, melhor ainda que os xaropes dos charlatães, não empregou ainda um só operário em projectos como o Novo Aeroporto de Lisboa, a Terceira Travessia do Tejo ou o TGV - mas poderia talvez esclarecer-nos dos milhões que já fez gastar em estudos, pareceres e consultorias. Com a crise ao rubro, insiste em adjudicações sem sentido; e, se o não param, ainda o veremos a cavalo no seu TGV alado, já nem na linha Poceirão-Caia, antes num qualquer troço Bencatel-Azaruja.
Insensível à decência, consentiu prémios bilionários em empresas com participação do Estado, já num contexto de austeridade declarada. E não se sente na necessidade de explicar sequer a relação de 750 mil euros do Taguspark com o pequeno-almoço com Luís Figo no último dia de campanha eleitoral. Esticou as Scut até ao limite da exaustão total e prolongou as PPP mesmo para além da exaustão.
Crente em que a mentira rende votos e sondagens (mesmo que afunde o país), começou por "prever" um défice público de 2,2% do PIB em 2009, que viria a rever para 5,9% já com o ano adiantado. Manteve essa ficção inverosímil durante meses a fio. No fim do ano, passadas as eleições, lá admitiu "oito e picos", que se transformariam em 9,3% e, finalmente, em 9,4% do PIB - quase cinco vezes mais do que o estimado no início do ano! No ano corrente, negociou o OE 2010, que iria para o lixo na semana seguinte, curvado ao PEC I e, logo a seguir, já ao PEC II. E continuou a conduzir, com o mesmo discurso panglossiano de fantasia "optimista", de endividamento, irrealidade e descontrolo, uma execução orçamental de vergonha. E de ruína, com a despesa pública sempre a subir, mês após mês. Nós agora, como sempre, que paguemos. Este Orçamento 2011, de assalto tributário e aos salários, é o espelho de tão rotundo fracasso. E o preço brutal do descaramento.
(…)

Somos governados por um fracassado com aparência de vencedor. E que nos tem conduzido ao fracasso colectivo. Hoje, o preço que já estamos a pagar é o desse fracasso de José Sócrates. Pagaremos também o preço do nosso próprio fracasso, se o fizermos continuar.

 

Publicado, hoje, no i. Artigo.

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