terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Os bascos não têm filhos

Consegui, finalmente, cumprir uma das minhas viagens em agenda há anos: a visita ao País Basco.
Feitas as contas à vida e ao tempo consegui compactar a família no carro e ir finalmente na direcção de Bilbau.
O País Basco é uma das comunidades autónomas de Espanha mais pujantes do ponto de vista económico. Saído de uma forte crise ligada à falência da indústria metalúrgica, o País Basco soube reconverter a sua indústria e hoje é, sem dúvida, uma das mais saudáveis economias regionais da Europa. Não só a capacidade dos seus cidadãos e das suas indústrias foi determinante na invejável situação económica basca, também a visão e o arrojo dos seus políticos foi importante para a região, nomeadamente a construção do Museu Guggenheim, de Frank Gehry, fizeram de Bilbau uma cidade referenciada ao nível mundial.
O País Basco tem três principais cidades - Vitória (Álava), Bilbau (Vizcaya) e San Sebastian (Guipúzcoa) – que têm populações perfeitamente ao nível das principais cidades de Portugal, a saber: respectivamente 220.000, 353.000 e 183.000 habitantes. O que torna ainda mais importante a capacidade das cidades bascas em se imporem ao nível da sua indústria, do seu comércio, da sua cultura. A acrescentar a esses factos tenho sonhado para o nosso Vitória, desde miúdo, êxitos como os que a Real Sociedad ou o Athletic de Bilbao tiveram e têm em Espanha, com a conquista de campeonatos apesar das suas massas associativas serem muito menores do que as dos tradicionais clubes ganhadores da Liga.

A viagem de carro foi imensa, mas: finalmente Bilbau!
Fomos recebidos por um curto mas significativo nevão que pôs as minhas três crianças mais as duas de um casal amigo num delírio genuíno e contagiante que nos fez lembrar que em Guimarães nunca neva (onde vais tu, Carnaval de 82…).
Nos outros dias foi sair à rua e sentir Bilbau em toda a sua pujança e força e deixar que San Sebastian entrasse pelos olhos adentro com toda a sua elegância de Inverno. Foi sair à rua e perceber que os bascos têm, regra geral, uma antipatia implacável e uma arrogância insuportável. O que é muito desagradável para quem, como nós, tem permanentemente o coração aberto para descobrir ou para mostrar. Mas, paciência, a influência francesa é notória, e as coisas ruins pegam-se com maior intensidade que as boas!
Não mendigo a simpatia alheia, e muito menos dela necessito quando estou confortavelmente em família e com amigos como estava, mas a falta de educação por arrogância (ou por estupidez, como foi frequentemente o caso) é algo que me chateia!
Não imagino viagem sem gastronomia. Sempre que saio levo as referências gastronómicas do sítio e dos locais a “peregrinar”. E foi o que fiz. Só que não contava que os bascos tivessem pavor a crianças nos seus restaurantes. Na rua, nos restaurantes e casas de tapas via-se imensa gente, elegante e conversadora, mas não se via uma única criança a acompanhá-los. Por isso sempre que entrávamos num restaurante ficávamos com a sensação – dada pelos proprietários, mas também pala clientela - de termos saído de um estranho acampamento nas redondezas e estar a entrar, indevidamente, no centro da civilização europeia. Lamentável. Não sei onde metem os bascos as crianças, em San Sebastian vi umas quantas pela mãos de criadas andinas, enquanto as senhoras passeavam os cães. Tirando essas, vi mais tarde alguns pré-adolescentes a cair de bêbados à entrada do Estádio San Mamés para irem ver um jogo de futebol perfeitamente descartável (Camarões -1 País Basco- 0). Deve ser esse o segredo: saem directamente das catacumbas para o estádio de futebol mais próximo, aos 13 anos de idade…
Enfim, culturas. Mas tal obrigou-nos, na fantástica e obrigatória passagem pela Casa Victor Montes (com marcação a preceito) a uma discussão dura que pôs na ordem um empregado de mesa que nos procurava arrumar para uma parte menos nobre da centenária e excelsa casa bilbaína. Nem de propósito, as cinco crianças, acossadas por toda aquela gente que prefere das crianças os seus retratos, portaram-se de uma forma irrepreensível. A léguas em educação e recato de umas quantas desbocadas e sexagenárias pró-loiras que nos acompanhavam na sala, e que de início nos haviam olhado com o espanto parvo da gente que julga que as nossas crianças só comem hambúrgueres ou esparguete à bolonhesa. Saíram “em ombros” as nossas crianças perante o olhar e a simpatia final do pessoal das mesas e da cozinha. Bem feito.

Eu não comprei a camisola da Real Sociedad, nem do Athletic como havia planeado comprar. Eu saberei por quem não hei-de torcer quando vir um grupo de ciclistas com um corredor da Euskatel Euskadi. Tenho a convicção que o BBVA ou o BBK (que faz créditos a 50 anos! Está explicado o amor dos bascos às crianças!) não terão nunca 5 euros meus.

E é melhor, meninos e meninas, comerem a sopa toda, senão os vossos pais mandam-vos para o País Basco.

Publicado in Comércio de Guimarães 03.01.06

2 comentários:

Prof. Cravo disse...

Fantástica crónica de viagem! Eu, passei no País Basco 4 vezes: 3 foram de noite e uma fiquei parado na estrada mais de 3 horas, por causa de um possível atentado da ETA. E crianças, também não me lembro de as ver...

J. Graça disse...

Amigo Rui,
Esta tua viagem pelo País Basco deixou-me a "planar" durante uns minutos. Digo-te que és fantástico.
Como sempre, ao melhor nível.